Truismes (1996), de Marrie Darrieussecq

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“Sei a que ponto esta história poderá semear a perturbação e a angústia. Desconfio que o editor que aceitar publicar este manuscrito se exporá a aborrecimentos infinitos. Não lhe será decerto poupada a prisão, e quero desde já pedir-lhe que me perdoe o incómodo.” Estranhos Perfumes (Truismes, no original francês) é o primeiro romance de Marie Darrieussecq e provocou, aquando do seu lançamento, um entusiasmo só comparável ao que ocorrera, há mais de quarenta anos, com o aparecimento da obra de estreia de Françoise Sagan, Bonjour Tristesse. Mais de 200.000 exemplares vendidos em França e traduções em curso em cerca de trinta países transformaram subitamente uma jovem professora universitária de 27 anos na “coqueluche” da mais recente actualidade literária francesa. Parábola sobre as nossas sociedades modernas - onde crescem as desigualdades, onde progride o “politicamente correcto”, onde o culto da vida sã e da plástica perfeita se aparenta a uma nova religião, onde até o amor se tornou mortífero - Estranhos Perfumes constitui a revelação de uma poderosíssima voz literária, que vai certamente marcar a literatura francesa dos últimos anos deste século.

Apreciação

“Parábola sobre a sociedade moderna” foi a descrição que me levou a ler “Estranhos perfumes”, de Marie Darrieussecq. Com uma enorme expectativa sobre o livro, sobretudo depois de ler a sinopse e de encontrar algures na Internet alguém que o comparou ao “Triunfo dos Porcos” e à “Metamorfose”, abri-o com um grande ânimo.

Digamos que o livro me surpreendeu e me desiludiu em simultâneo. “Estranhos perfumes” narra a história de uma mulher que se deixa levar pela exigência do quotidiano e que acaba por se deixar absorver pelos seus instintos mais primitivos, espelhando a sua lenta e intermitente transformação em porco. Ou, neste caso, em porca. Se a primeira parte do livro narra esta metamorfose e nos dá a conhecer com pormenor a sua mudança de hábitos e a desadequação social, afastando-a do contacto humano e aproximando-a de uma vida rudimentar e animalesca, a segunda parte do livro afasta-se da parábola sobre a sociedade moderna para conferir um carácter como que fantástico a este conto. Esta foi a grande desilusão.

Aquela que considero a primeira parte do livro, onde se desconhece a origem desta metamorfose, descreve a incompreensão da protagonista às mudanças no seu corpo, à angústia na incapacidade de comunicar e de interagir e à penúria na sua adoração cega pela vida animal e afastada da humanidade, o que consegue espelhar de certa forma o medo da solidão e da marginalização e a cegueira face às que são consideradas as grandes prioridades de cada um. Tendo lido e gostado muito d'”O triunfo dos porcos” e da “Metamorfose”, livros de excelência dentro do género, considerei “Estranhos perfumes” uma fraca tentativa de equiparação a grandes autores como George Orwell e Franz Kafka por parte de Darrieussecq. Contudo, por a escrita ser tão fluída e com laivos de ironia e transparência nas descrições e no decorrer da história, optei por gostar do livro no momento em que estava na dúvida sobre a qualidade do mesmo. Porém, chegada a segunda parte do conto, esta expectativa veio por água abaixo quando foi detalhada a origem da metamorfose e o destino da mulher / porca, visto que a atribuição de características fantásticas ao conto destruiu tudo o que vinha para trás. Penso que este é um daqueles casos em que o final estraga o resto, por nos fazer perceber que o caminho que a personagem fez não era, afinal, uma crise existencialista, mas um caminho quimérico que nos induz em erro.