O homem duplicado (2002), de José Saramago

homem_duplicado

Tertuliano Máximo Afonso, professor de História no ensino secundário, «vive só e aborrece-se», «esteve casado e não se lembra do que o levou ao matrimónio, divorciou-se e agora não quer nem lembrar-se dos motivos por que se separou», à cadeira de História «vê-a ele desde há muito tempo como uma fadiga sem sentido e um começo sem fim». Uma noite, em casa, ao rever um filme na televisão, «levantou-se da cadeira, ajoelhou-se diante do televisor, a cara tão perto do ecrã quanto lhe permitia a visão, Sou eu, disse, e outra vez sentiu que se lhe eriçavam os pelos do corpo»… Depois desta inesperada descoberta, de um homem exactamente igual a si, Tertuliano Máximo Afonso, o que vive só e se aborrece, parte à descoberta desse outro homem. A empolgante história dessa busca, as surpreendentes circunstâncias do encontro, o seu dramático desfecho, constituem o corpo deste novo romance de José Saramago.
O Homem Duplicado é sem dúvida um dos romances mais originais e mais fortes do autor de Memorial do Convento.

Opinião

Não li sequer metade da obra de José Saramago mas, considerando os livros que li, acredito que tudo se pode esperar do autor. Entre O ensaio sobre a cegueira, Caim, O ensaio sobre a lucidez, As intermitências da morte, Clarabóia, A viagem do elefante e Memorial do Convento, noto que cada história demonstra a enorme elasticidade de Saramago em termos de estilo, criatividade e tridimensionalidade. Estas características estão fortemente presentes no mais recente livro que li: de entre as dezenas de livros do autor, optei pel’O homem duplicado sem qualquer tipo de expectativa, visto que não conhecia a história nem o entusiasmo que provocou um pouco por todo o mundo.

Dotada de uma enorme simplicidade ao enquadrar o nosso protagonista, esta história começa com o aluguer de uma cassete de vídeo algures nos anos ’90 numa cidade sem nome (deslocalização esta a que os leitores mais atentos já se habituaram). Quem diria que um acto tão simples e mundano poderia transformar radicalmente a vida de Tertuliano Máximo Afonso? É esta uma das características de que mais gosto no Nobel português da literatura: a aptidão para tornar algo simples em algo grande e uma situação aparentemente desprovida de importância num enorme catalisador para uma história emocionante e guiada com um certo carácter caótico.

Aliás, é esta liberdade em rumar pelo caos que Saramago se rege neste título – o ‘efeito borboleta’ é um dos fios condutores da narrativa n’O homem duplicado, estando claramente definida esta problemática de causa vs. efeito ao espelhar a incapacidade de controlar acontecimentos depois de outros terem lugar. E, na minha opinião, não é aqui que se limita o acompanhamento do caos enquanto pilar deste romance. O caos no desenrolar da história é acompanhado pelo caos em termos estruturais: Aquela que começa por ser uma história curiosa e com laivos cómicos acaba por sofrer mutações e por ganhar características dignas de um romance de suspense e, mais tarde, de uma história dramática. Penso que, em conjunto, todos estes elementos se unem num casamento único que reforça o impacto do livro e que sustém esta história de marcas fantásticas. Seria de esperar, pois, que uma das personagens confirmasse mais uma vez o rumo que o livro segue, afirmando que “O caos é uma ordem por decifrar”.

Tendo como base temas delicados como a solidão, a incerteza e a dúvida que assola as pessoas, cada uma à sua maneira, José Saramago atribui-lhes emoções reais e expõe as suas dúvidas existenciais e comportamentais que não são desconhecidas ao leitor, o que atribui realismo, sensibilidade e humanidade (o que não descarta, obviamente, bondade e maldade, força e fraqueza, medo e coragem) de forma particular a cada uma das personagens.

É de frisar que o sucesso d’O homem duplicado levou à adaptação cinematográfica que, à semelhança de outros livros de Saramago, ajudará mais uma vez a reforçar a promoção da literatura portuguesa a nível internacional. Dennis Villeneuve será o realizador deste filme e Jake Gyllenhall o protagonista; a estreia será algures em 2013.