Adieu (1830), Honoré de Balzac

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Por entre o fragor da guerra e a retirada das tropas napoleónicas, Phillippe de Sucy consegue salvar a condessa Vandières pondo em risco a sua própria vida. Separados pelo desenrolar dos acontecimentos, o Sr. De Sucy não pára de se interrogar sobre o destino da bela condessa. Onde se encontra Stéphanie? Estará viva ou morta? E quem é a misteriosa Geneviève, que se passeia pelos bosques e que tanto se assemelha à condessa Vandières?

Apreciação

Embora tente lutar contra o intuito de julgar os livros pela capa, com este pequeno conto não resisti. A capa parecia-me tão triste, melancólica e doce e a crítica prometia um mergulho tão intenso no período da Restauração e na história francesa que acabei por abrir rapidamente esta pequena obra de Honoré de Balzac.

“O último adeus” é um pequeno conto que foi escrito e publicado em várias partes num semanário francês, acabando estas partes por ser compiladas para a edição do livro. A história divide-se em duas partes distintas, embora relacionadas uma com a outra: o momento em que Phillipe de Sucy, o nosso protagonista, encontra o seu amor há muito perdido, a condessa Stéphanie de Vandières, depois de a perder havia muito num episódio bélico desenrolado na Rússia aquando da retirada das tropas francesas e da famosa passagem pelo rio Berezina, passagem a qual constitui a segunda parte do livro.

Esta divisão do conto em duas partes deixou-me a sensação que ambas as histórias, embora relacionadas, dariam dois livros diferentes. Ou dariam, por outro lado, pano para mangas para um romance literário sólido e apaixonante. A forma como o autor descreve sucintamente como Phillipe redescobre a sua amada é muito superficial, pouco apaixonante, meramente descritiva, o que acabou por não atribuir emoções profundas nem meramente realistas às personagens, deixando a impressão que ‘ouvimos’ uma breve história de um reencontro informal que poderia ser contada por qualquer pessoa num encontro de amigos. Interessante, sim, é a forma como o autor descreve e relata a infelicidade e demência que a dor e o sofrimento podem fazer a uma pessoa, ao reflectir traços de loucura a Stéphanie que a levam a perder a compostura e a comportar-se como um animal, cujo comportamento é objecto de interesse e de estudo. Sobre este tema, surpreendi-me ao constatar no Goodreads que há quem tenha utilizado este livro para estudar o comportamento humano e o citar nas suas teses.

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Por outro lado, o flashback ao desencontro de ambas as personagens na retirada das tropas russas é mais profundo e entranha-se mais nos pormenores das circunstâncias em que a narrativa se desenrola, roçando acontecimentos históricos na perspectiva das personagens embora, também aqui, as descrições sejam mais descritivas e aborrecidas do que propriamente emocionantes ou envolventes. Com enfoque nas personagens, Balzac descreve a narrativa que decorre num cenário de guerra, evidenciado pelo instinto de sobrevivência dos militares e pelo desespero humano em condições extremas, situado em situações de vida ou morte.

“O heroísmo destas tropas generosas ia mostrar-se inútil. Os soldados que afluíam em massa às margens do Bereszna vinham encontrar, por desgraça, essa imensidão de carros, de caixas, de móveis de toda a espécie, que o exército tivera de abandonar ao efectuar a travessia do rio nos dias 27 e 28 de Novembro. Herdeiros de riquezas inesperadas, esses desgraçados, endurecidos pelo frio, instalavam-se nos bivaques vazios, partiam o material do exército para construírem cabanas, acendiam fogueiras com tudo o que lhes vinha às mãos, despedaçavam os cavalos para se alimentarem das suas entranhas, arrancavam as cortinas ou as capotas dos carros para se cobrirem, e ficavam-se a dormir, em vez de continuarem o caminho e transporem, durante a noite, esse Berezina que uma incrível fatalidade tornara já tão funesto para o exército.
A apatia desses pobres soldados não a podem compreender senão os que se lembram de terem atravessado esses vastos desertos de neve sem poderem beber outra coisa que não fosse a própria neve, sem outra cama além da neve, sem outra perspectiva além do horizonte de neve, sem outro alimento que não fosse a neve ainda ou algumas beterrabas geladas e uns punhados de farinhas ou carne de cavalo. Mortos de fome, de sede, de cansaço e de sono, esses infelizes chegavam à praia onde se lhes deparava madeira, lume, alimentação, inúmeros carros abandonados, bivaques, enfim, toda uma cidade improvisada.

Não recomendo a edição que li (edição de bolso do Diário de Notícias), visto que a tradução é muito má e se encontram ao longo de todo o livro gravíssimas falhas gramaticais.

Sobre o autor:

honore_balzacEscritor francês, nasceu a 20 de maio de 1799, em Tours, e morreu a 18 de agosto de 1850 em Paris. Honoré de Balzac decidiu aos vinte anos dedicar-se à literatura. Como escritor de ‘Cromwel’l (1819) e outras trágicas peças não foi além de um insucesso absoluto. De seguida escreveu romances sob pseudónimos. Em 1829, a publicação de duas obras deram o mote para o início do sucesso da sua carreira: ‘les Chouans’, um romance de amor que conta a história da insurreição dos camponeses de Breton contra a França revolucionária de 1799, e ‘la Physiologie du mariage’, um ensaio humorístico e satírico. Um ano depois publica ‘Scènes de la vie privée’, obra que veio aumentar a sua reputação. Estas histórias contadas por Balzac eram, na sua maior parte, estudos psicológicos baseados em conflitos entre pais e filhos. É um escritor que observa muito detalhadamente a fachada social. É como um cientista, deve muito ao positivismo de Comte (observação e experiência). Escreve o que pensa da sociedade, mas de um modo desapaixonado.

Não há tema mais balzaquiano do que o de um jovem provinciano ambicioso que luta no mundo competitivo e adverso da grande cidade de Paris. Balzac admira estes indivíduos e tem especial atracção pelo tema que coloca em conflito o indivíduo com a sociedade. As personagens balzaquianas são continuamente afectadas pelas pressões derivadas das dificuldades materiais e das ambições sociais. Ainda durante a década de trinta escreveu alguns romances relacionados com psicologia, mística e temas eróticos. A variedade de temas transformou Balzac no supremo observador e cronista da sociedade francesa contemporânea. Os seus romances são inigualáveis quer na vitalidade e na diversidade narrativas, quer no interesse obsessivo pelas várias vertentes da vida, o contraste entre os hábitos e costumes da cidade e da província, a indústria, o comércio, a arte, a literatura, a cultura, a intriga política, o amor romântico, os escândalos na aristocracia e na alta burguesia. A maioria destes assuntos estavam ainda por explorar na ficção francesa.

A história que Balzac se propôs escrever é sobretudo uma história da sociedade burguesa, não negligenciando o indivíduo nos seus silêncios e nas suas elipses. Balzac tinha um extraordinário poder de observação, memória fotográfica e capacidade intuitiva para perceber as atitudes dos outros, os seus sentimentos e motivações. O romance balzaquiano faz com que o leitor descubra a alma e os sofrimentos incógnitos, em particular os sofrimentos de abandono e de humilhação. Os seus romances são interditos a leitores unidimensionais.

Fonte de Sobre o Autor

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