Adrian Mole #1 #2 #3 (1982, 1984, 1989), Sue Townsend

O Diário Secreto de Adrian Mole aos 13 Anos e 3/4

Adrian Mole é um adolescente com as preocupações existenciais de um adolescente: borbulhas; o corpo a crescer em sítios inesperados (inesperadamente); a cabeça a pedir explicações para todos os factos da vida; os factos da vida a fazerem «fintas» à cabeça; o desejo de fazer versos; o amor pela grande literatura universal; a paixão pela mulher-menina amada. Quando Adrian Mole inicia o seu diário ele tem 13 anos e três quartos. Quando o acaba tem quinze anos completos. Pelo caminho fica o registo emocionante, inocente, engraçado e, quando calha, desesperado, do dia a dia de um rapazinho dividido e multiplicado entre e pelos pais (com uma tendência danada para se separarem e embriagarem…), a namorada, os professores, os amigos (entre 14 e 90 anos), a avó, o cão, os pais dos amigos, os vizinhos e o mundo em geral. Sue Townsend conseguiu escrever um livrinho tão perturbante que pode rivalizar, como disse Jilly Cooper, com esse outro livro de culto que tem por título À Espera no Centeio (The Catcher in the Rye), de J. D. Salinger (Difel, 2005).

Adrian Mole na Crise da Adolescência

Na sequência do hilariante, comovente e tremendamente popular Diário Secreto de Adrian Molen aos 13 anos e ¾ este volume começa onde o anterior nos deixou, isto é nos 15 anos de Adrian:

Domingo, 9 de Maio: Acabo de reparar que nunca vi um cadáver ou um bico de maminha verdadeiro. É o que dá viver num beco sem saída.
Quinta-feira, 13 de Maio: Ontem eu era o tipo normal de adolescente intelectual. Hoje sei o que é sofrer… Amo-a! Meu Deus! Minha Pandora!…
Sábado, 22 de Maio: O meu pai acaba de me perguntar se eu queria um irmão ou uma irmã. Eu disse que nem um nem outro. Porque é que eles andam sempre a chatear com esta conversa? Espero que não estejam a pensar em adoptar uma. São uns pais péssimos. Olhem para mim, sou completamente neurótico.

As Confissões de Adrian Mole & Cª

No período entre as problemáticas idades de 16 anos e ¾ e de 21 anos e quatro meses, Adrian Mole, diarista e intelectual, continua a confiar ao papel as suas mais profundas reflexões e as mais tocantes experiências. Tendo como pano de fundo o duradouro, mas intranquilo casamento do Sr. e da Sr.ª Mole, o jovem Adrian arranja emprego como bibliotecário, desenvolve um ardente desejo por Sharon Botts, sem no entanto esquecer Pandora – que se encontra em Oxford a estudar russo, chinês e servo-croata. Mais tarde vamos encontrá-lo no Departamento do Ambiente, contribuindo para a preservação da camada de ozono. Muito generosamente, Adrian consentiu em partilhar as páginas deste livro com outras duas conhecidas – ainda que menos eminentes – escritoras: Sue Townsend, que contribui com uma série de cândidos e animados episódios vividos no seu país e no estrangeiro; e Margaret Hilda Roberts, cujo diário da adolescência proporciona uma invulgar e muitas vezes penetrante análise de assuntos de Estado actuais.

Apreciação

‘O diário de Adrian Mole aos 13 anos e 3/4’ foi provavelmente um dos livros que mais vez li em miúda, a par com os da Condessa de Ségur e os de Quino. Encantada com a sinceridade e ingenuidade de Adrian Mole, a cada nova entrada do diário eu aprendia coisas novas sobre o que era ser jovem pré-adolescente e sobre os segredos que os outros (afinal também) guardavam.

Reli recentemente os três primeiros livros da colecção e admito que talvez até tenha gostado mais deles do que há uns anos, por ter encontrado muitas piscadelas de olho entrelinhas que na altura não detectei e por ter percebido mensagens subtis transmitidas pela autora ao longo dos diários, que na altura não tinha capacidade para entender. Os três primeiros livros revelam os segredos, problemas e hábitos que este jovem inglês sofre entre os 13 e os 20 ano, narrados de forma bastante crua e credível: todas as entradas dos diários são relatadas na primeira pessoa e, logo, tudo o que lemos reflecte a personagem da forma mais verdadeira e transparente possível.

Entre lutar com problemas de auto-estima no que respeita ao seu físico, ‘sobreviver’ num lar disfuncional, morrer de amores pela namorada e lidar com questões de teor sexual naturais da adolescência, Adrian tem alma de poeta e sofre profundamente com questões que considera ser existencialistas. Considera-se um intelectual incompreendido e um “existencialista niilista” que nasceu no sítio errado à hora errada num mundo que não lhe oferece as oportunidades que ele pensa merecer, o que o torna numa personagem altamente ingénua e cómica por ter a mania das grandezas e assumir que conhece o mundo como ninguém. Mole é apaixonado, dedicado, frustrado, iludido. Não é uma personagem irremediavelmente boa ou má. Tem defeitos e qualidades e tenta lidar com as suas características à sua maneira, permitindo uma fácil identificação por parte do leitor.

Sue Townsend não só criou uma personagem, como lhe deu vida. Adrian elevou-se das páginas e tornou-se em alguém que poderia realmente existir, tal é a força e tridimensionalidade que a autora lhe atribuiu. Aliás, esta capacidade da autora em lhe atribuir características tão reais gerou uma enorme polémica depois de um rapaz inglês, A. Mole, ter acusado de Townsend de lhe ter roubado e publicado os diários. A situação acabou por nunca ser resolvida judicialmente e o rapaz retirou as queixas mas, mesmo assim, até hoje há ainda quem duvide acerca da identidade da personagem: os diários são ou não de alguém ‘real’?

“There’s only one thing more boring than listening to other people’s dreams, and that’s listening to their problems.”

“I used to be the sort of boy who had sand kicked in his face, now I’m the sort of boy who watches somebody else have it kicked in their face.”

“My father announced at breakfast that he is going to have a vasectomy. I pushed my sausages away untouched.”

“I don’t know why women are so mad about flowers. Personally, they leave me cold. I prefer trees.”

Adrian Mole na televisão

Adrian_Mole_adaptacao

Os livros de Sue Townsend foram ao longo dos anos um sucesso tão estrondoso que já foram adaptados ao pequeno ecrã. As mini-séries que correspondem ao primeiro e segundo livros foram produzidas pela Thames Television em 1985 e contam com um total de 12 episódios, mas a edição de DVD lamentalmente não inclui extras. Mais tarde, adaptaram-se também os livros seguintes.

Gian Sammarco é o jovem que encarna Adrian no início da adolescência e revela as suas peripécias, amores e desamores junto da sua família e dos seus amigos e colegas Nigel, Barry Kent, Pandora, Bert Baxter, entre muitos outros.  A realização foi de Peter Sasdy.

Aqui podem assistir ao primeiro episódio da primeira temporada.