O bom Inverno (2010), João Tordo

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Quando o narrador, um escritor prematuramente frustrado e hipocondríaco, viaja até Budapeste para um encontro literário, está longe de imaginar até onde a literatura o pode levar. Coxo, portador de uma bengala, e planeando uma viagem rápida e sem contratempos, acaba por conhecer Vincenzo Gentile, um escritor italiano mais jovem, mais enérgico, e muito pouco sensato, que o convence a ir da Hungria até Itália, onde um famoso produtor de cinema tem uma casa de província no meio de um bosque, escondida de olhares curiosos, e onde passa a temporada de Verão à qual chama, enigmaticamente, de O Bom Inverno. O produtor, Don Metzger, tem duas obsessões: cinema e balões de ar quente. Entre personagens inusitadas, estranhos acontecimentos, e um corpo que o atraiçoa constantemente, o narrador apercebe-se que em casa de Metzger as coisas não são bem o que parecem. Depois de uma noite agitada, aquilo que podia parecer uma comédia transforma-se em tragédia: Metzger é encontrado morto no seu próprio lago. Porém, cada um dos doze presentes tem uma versão diferente dos acontecimentos. Andrés Bosco, um catalão enorme e ameaçador, que constrói os balões de ar quente de Metzger, toma nas suas mãos a tarefa de descobrir o culpado e isola os presentes na casa do bosque. Assustadas, frágeis, e egoístas, as personagens começam a desabar, atraiçoando-se e acusando-se mutuamente, sob a influência do carismático e perigoso Bosco, que desaparece para o interior do bosque, dando início a um cerco. E, um a um, os protagonistas vão ser confrontados com os seus piores medos, num pesadelo assassino que parece só poder terminar quando não sobrar ninguém para contar a história. 

Neste romance absorvente e magnificamente narrado, com alguns dos melhores diálogos da literatura portuguesa, João Tordo coloca a sua arte do serviço de uma história carregada de suspense, em que o amor e a literatura se misturam com sexo, crime e metafísica, agarrando o leitor da primeira à última página.

Apreciação

Se ler em Português é bom, conhecer novos autores ainda é melhor. João Tordo é um escritor com vários romances publicados, com presença no estrangeiro, e com destaques no mercado literário: para além de outros prémios a que concorreu, foi vencedor do prémio José Saramago em 2009 pelo seu romance ‘As três vidas’.

‘O bom Inverno’ foi, até agora, o único livro que li, esperando que seja o primeiro dos vários que o autor tem nas livrarias portuguesas. Não que o estilo em que o autor se enquadra seja dos meus predilectos, mas a forma como João Tordo desenvolveu a narrativa e criou o cenário é muito interessante. Fazendo referência a um dos assuntos discutidos pelas suas personagens neste romance, senti que este livro foi escrito tendo em vista uma adaptação cinematográfica: a descrição dos locais, os diálogos inteligentes e concisos, a rapidez no desenrolar da história, a marcação do ritmo, o ambiente criado. Ao ler o livro, fui transportada para uma longa metragem cujas imagens fui eu que criei, e não um ecrã que me mostrou.

A escrita de Tordo é leve, fluida. Parece-me, no entanto, que o seu estilo demonstra uma grande vontade de demonstrar maturidade, o que está patente ao longo da narrativa: encontramos diálogos profundos sobre a escrita, mas vagos e limitados à condição das personagens; assistimos a tragédias que marcam o decorrer da história e o caminho das personagens, sem no entanto encontrarmos pormenores sobre a fraca condição humana destes últimos; sabemos de cenas de sexo que acontecem com frequência na casa onde a trama toma lugar, o que não significa que o romance se torne mais adulto.

Acompanhando as críticas publicadas no Goodreads, apercebi-me que houve quem achasse que este livro aborda questões metafísicas e altamente profundas sobre a vida, mas penso que esse não era o objectivo do autor nem que, sequer, nos aproximamos dessas questões. Digamos que o estilo roça o mistério / policial. Para estudar a condição humana, talvez se deva optar por Dostoievski ou Tolstoi, tão profundos no que toca à fragilidade do relacionamento. Acho, sim, que João Tordo escreve muito bem e que orienta cuidadosamente a narrativa, o que resultou em ‘O bom Inverno’ numa experiência interessante que suscita curiosidade da primeira à última página.

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