Er ist wieder da (Ele está de volta, 2013), Timur Vermes

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E se Hitler voltasse à Alemanha? E se os alemães o recebessem de braços abertos? E se…. Berlim, 2011. Adolf Hitler acorda num terreno baldio. Sente uma grande dor de cabeça. O uniforme tresanda a querosene. Olha à sua volta e não encontra Eva Braun. Nem uma cidade em ruínas, nem bombardeiros a riscar os céus. Em vez disso, descobre ruas limpas e organizadas, povoadas de turcos, milhares de turcos. E gente com aparelhos estranhos colados ao ouvido. Começa assim o surpreendente primeiro romance de Timur Vermes, passado na Alemanha de Angela Merkel, 66 anos depois do fim da guerra. Hitler ganha nova vida. Na sociedade espetáculo, dos reality shows e do YouTube, o renascido Führer é visto como uma estrela, que uma televisão sequiosa de novidades acolhe de braços abertos. A Alemanha da crise, do Euro ameaçado, da austeridade, vê nele um palhaço inofensivo. Mas ele é real, assustadoramente real. E, passo a passo, maquiavelicamente, planeia o seu regresso ao poder – por via da televisão. Sátira ferocíssima a uma sociedade mediatizada, narrado num registo arrepiadoramente fiel ao Mein Kampf, tem tanto de romance político como de crítica de costumes. Afinal, a Alemanha de Merkel, dominadora, obcecada pelo poder e pelo sucesso, está pronta para o receber… e ele está de volta.

Apreciação

O tema de Ele Está de Volta é muito sensível e os seus conteúdos polémicos têm sido alvo de enorme controvérsia, deixando Timur Vermes nas bocas do mundo. Na perspectiva optimista, este livro pode ser uma boa ferramenta para a análise de comportamentos e do fenómeno político e social que despoletou e que acabou por dilacerar a Europa na primeira metade do século XX. Porém, a perspectiva mais pessimista tem deixado os nervos em franja de pessoas mais susceptíveis, visto que a mera menção a Adolf Hitler abomina os mais sensíveis ao tema.

É simples: neste livro, Hitler acorda ‘miraculosamente’ em 2011 em Berlim. O destino acaba por o levar, num espaço muito curto de tempo, a ser a estrela televisiva de um programa onde ele desbobina sobre o orgulho alemão e os preconceitos inerentes. A questão é: visto como comediante (um imitador de Hitler da segunda guerra mundial), o protagonista debate e defende ideias anti-semitas. É levado a sério na medida do possível – as suas ideias são consideradas tão ridículas que as pessoas o ouvem e respeitam o seu conhecimento aprofundadíssimo acerca do crescimento de Hitler na política, a sua ascensão e os planos que levaram à dizimação de milhões de pessoas.

Nesta obra, a personagem de Hitler deixa o leitor com pensamentos ambíguos: a desadequação à realidade do século XXI, nomeadamente no que respeita ao estilo de vida, hábitos do quotidiano e desenvolvimento da tecnologia, ilustram-nos como uma pessoa inculta e com um cariz essencialmente cómico. Por outro lado, o pensamento estratégico e o conhecimento histórico e político retratam-no como uma pessoa altamente informada, analítica e hábil. Este misto na percepção deste Hitler de 2011 deixam o leitor no limbo: afinal, como é que a história e tema do livro pode ser abordada? Trata-se de uma sátira ao crescimento de uma crença política? Trata-se de uma análise ao comportamento humano na génese de um fenómeno sociológico de enormes dimensões? Será uma censura ao passado e às possibilidades em aberto no presente? Ou trata-se apenas de troça?

Independentemente do objectivo do autor quando escreveu o livro, a realidade é que são tantas as abordagens quantos leitores há. Fazendo uma rápida busca online, nomeadamente no Goodreads, é fácil encontrar quem odeie e adore o livro. Se há quem tenha referido sentir vergonha pelo autor, dados os conteúdos “de muito mau gosto”, há também quem respeite esta obra para relembrar o passado e para prevenir o futuro. Em ambos os casos, não há nada como ler Ele Está de Volta para tirar dúvidas. Recomendo!

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