Vechnyj muzh (a.k.a. O eterno marido, 1870), Fiódor Dostóievki

eterno_marido

Universalmente considerado como um dos iniciadores da literatura moderna, Dostoiévski é também em muitos aspectos um precursor do pensamento de Freud pela admirável compreensão das motivações profundas e não conscientes, do sofrimento psíquico, da linguagem dos sonhos, dos laivos de loucura que caracterizam os comportamentos. Neste conto, o autor trata de um tema muito divulgado nas literaturas europeias de meados do século XIX, especialmente na francesa: o argumento narra um triângulo amoroso – marido, mulher e amante – através da voz de um homem rico e indolente, que é confrontado com o marido, depois viúvo, da sua amante.

Apreciação

Depois de se começar a ler Dostóievski, é difícil não querer ler os seus restantes livros. O motivo é simples: as suas obras exploram algumas das emoções mais frágeis e primitivas do Homem, descritas sob um olhar atento e analítico, pragmático e crítico. Em ‘O eterno marido’, esta característica está patente da primeira à última página. Como um autor uma vez me disse, as obras para terem sucesso e interesse têm de retratar avida de dois tipos de homem: ou soberbo, ou medíocre. E é na mediocridade que este livro assenta.

Nesta pequena obra russa, deparamo-nos com duas perspectivas sobre uma experiência. Tendo como motor principal o ciúme, ‘O eterno marido’ retrata as visões do marido e do amante num triângulo amoroso, ilustradas de forma cómica ao expor as personagens ao ridículo. Como nos restantes livros deste autor, as personagens são autênticas no relacionamento consigo e com os outros: são genuínos nas suas práticas e tão transparentes quanto uma pessoa pode ser consigo mesma.

Por um lado, o amante, o nosso protagonista, luta contra o remorso e reflecte acerca das circunstâncias e das consequências de um caso amoroso com a mulher casada. A sua perspectiva varia facilmente entre o sentimento de culpa e a auto-redenção, por considerar que as circunstâncias são responsáveis por o levar a cometer este crime, ilustrando-o como um homem frágil, inseguro, incapaz de resolver uma forte questão moral. Por outro lado, conhecemos o marido ou, antes, o ‘eterno marido’, o típico homem que serve incondicionalmente a sua mulher e a segue independentemente da dor que esta lhe causa e o desconforto matrimonial que provoca. É medíocre, indeciso. Ao longo da narrativa, não desiste de tentar resolver a sua vida – mesmo que de formas questionáveis, e procura incessante e secretamente resolver-se com o amante. A busca frustrada, por não saber como, revela a frágil criatura que ele é, tão só e tão desamparado que dificilmente o impede de saber se voltará a ser feliz.

“Sim”, pensava ele com sarcasmo (era sempre sarcástico quando pensava em si mesmo), “há alguém, sem dúvida, que se ocupa em me tornar melhor e que me sugere todas essas recordações malditas e todas essas lágrimas de arrependimento. Que seja. E então? Tudo isso é tempo perdido. Estão muito bem as lágrimas de arrependimento, mas não estou certo de que, com meus quarenta anos, meus quarenta anos de uma existência estúpida, não tenho uma migalha de livre-arbítrio? Que amanhã a mesma tentação se apresente, que, por exemplo, eu tenha de novo um interesse qualquer em espalhar o boato de que a mulher do professor aceitava com prazer o que eu lhe oferecia – e recomeçarei, sei bem, sem a menor hesitação – e serei tanto mais vil e mais pérfido que o farei pela segunda vez, e não mais pela primeira.

O comportamento que gira em torno do ciúme nesta obra é o principal objecto de análise do autor, nunca descartando a abordagem filosófica à condição humana e à complexidade que lhe está inerente.