The book thief (2013), Brian Percival

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O novo romance de Markus Zusak decorre durante a Segunda Guerra Mundial na Alemanha e conta-nos a história de Liesel Meminger, uma rapariga adoptada que vive nos arredores de Munique. Liesel cria um sentido para a sua vida roubando algo a que não consegue resistir – livros. Com a ajuda do seu pai adoptivo que toca acordeão, Liesel aprende a ler e, durante os bombardeamentos, compartilha os livros roubados com os seus vizinhos e com o judeu escondido na sua cave, antes de este ser deslocado para Dachau.

Apreciação

Sim, sim, já sabemos. O filme nunca é igual nem melhor que o livro que o inspirou. Todavia, é impossível não matar a curiosidade e espreitar o resultado.

Gostei muito do livro de Markus Zusak e penso que a sua visão muito direccionada e focada em determinados pontos da segunda guerra mundial é, sem dúvida, objecto de interesse quando falamos de testemunhos e vivências de sobreviventes (e não só). Nesse aspecto, e de forma geral, talvez a adaptação de Brian Percival possa passar despercebida quando falamos de filmes que se enquadram neste tema, como ‘O pianista’ (Roman Polanski, 2002) ou ‘O rapaz do pijama às riscas’ (Mark Herman, 2008). O que o diferencia?

Na verdade, a história de Zusak é muito despretensiosa e caracteriza-se pela simplicidade. Ao acompanhar a vida de Liesel, o livro expõe algumas dúvidas e contrariedades relativas à visão alemã face à guerra pelos olhos de uma rapariga ingénua que ama o seu país e que odeia a guerra na mesma medida, levando-a a questionar-se sobre o que é que se passa à sua volta. Através da lente de Percival, temos esta perspectiva e somos capazes de compreender facilmente os medos e interrogações que passam pela cabeça da nossa protagonista, guiando-nos pela Rua do Céu e levando-nos a espreitar a difícil vida do povo durante o holocausto.

Embora ao longo das páginas funcione, a verdade é que a narração omnipresente da história pela ‘morte’ como personagem que observa e intervém não adiciona grandes qualidades à película, talvez com a excepção de ser uma abordagem diferenciadora e rara para o relato. Também o sotaque alemão, que tenta colocar o espectador no seio da Alemanha, acaba por ser questionável: porque não tudo em inglês ou tudo em alemão? Por que misturar ‘yes’ com ‘ja’? Não são raros os realizadores que optam por esta mistura idiomática para ajudar conferir uma maior credibilidade ou contextualização geográfica, mas normalmente com um tipo diferente de abordagem: vejamos o ‘À caça do Outubro vermelho’ (John McTiernan, 1990), no qual as personagens começam por falar russo e, gradualmente, acabam por ficar a falar inglês.

Mesmo com todas as vicissitudes das adaptações cinematográficas, que neste filme resultaram numa perda da paixão de Zusak patente em todo o livro, este é um filme a ver e a considerar dentro do género e do tipo de registos deste período negro da Europa.