Amor de Perdição (1862), Camilo Castelo Branco

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Foi inspirado pelas suas próprias desventuras amorosas e pela peça de Shakespeare, Romeu e Julieta, que Camilo Castelo Branco escreveu Amor de Perdição, o seu romance mais famoso. Obra emblemática do Romantismo português, Amor de Perdição conta-nos a história de Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, dois jovens que pertencem a famílias distintas de Viseu. Entre ambos nasce um amor que são obrigados a calar pois as suas famílias são rivais e tudo farão para os separar. Mas os amantes acabarão por mostrar através do mais dramático dos actos, que nada, nunca, destruirá o sentimento que os une.

Apreciação

Li este livro pela primeira vez no liceu, no âmbito das ‘leituras obrigatórias’ dos programas das aulas de Português. Adorei-o da primeira vez e, anos mais tarde, retirei esse meu livro com anotações das aulas da prateleira e aventurei-me novamente nas aventuras e desencontros de Simão e de Teresa. Terminei-o esta semana e o resultado foi o mesmo: adorei. Para além de ter gostado muito de rever a história, da qual me recordava muito vagamente, encontrei pormenores de que não me lembrava de ter notado antes.

Quando se fala em Camilo Castelo Branco, a peça de referência que vem à cabeça é ‘Amor de Perdição’, uma obra-prima que simboliza o auge do romantismo em Portugal, ilustrando a segunda fase desta corrente que celebra e leva o amor até às últimas consequências. Mesmo com um tipo de registo diferente, penso que não é errado de dizer que este casal, ou de casal que quase o foi, é o Romeu e Julieta em português: a paixão na adolescência, a cegueira do amor, a rivalidade de famílias, o afastamento / exílio dos amantes e a tragédia amorosa são elementos comuns que nos prendem e nos fazem reflectir sobre o que é realmente o Amor e até que ponto estamos dispostos a lutar por ele.

A história é despoletada pela autoridade paterna, que impõe um rumo às suas vidas e que traça um destino trágico aos amantes. Através do olhar do autor omnisciente, acompanhamos o enredo se apoia em dois elementos fundamentais que o consolidam: 1. factos históricos, referidos ao longo de toda a narrativa através do recurso a datas, locais e registos; 2. cartas, partilhadas pelo autor para credibilizar a vivência das personagens e conferir realismo à história.

Se, por um lado, acompanhamos a paixão de Simão e de Teresa que são capazes de ir até às últimas consequências em nome da sua felicidade conjunta, por outro a intolerância e incompreensão dos pais é um dos catalisadores da história. Esta antítese pretende justificar o rumo tomado pelas personagens e as acções por que optam, intensificando a narrativa e conferindo um forte carácter romântico, o que resulta numa cumplicidade entre a natureza e o sofrimento dos protagonistas, sob um cenário desprovido de liberdade e de impedimento de encontro da sua identidade individual.

Fechado o livro, terminada a história, é fácil identificar Simão como um autêntico herói romântico, marcado por vários elementos: a busca da felicidade plena através do amor, a defesa da sua honra que lhe dita o cru e cruel destino, a sua regeneração através do amor de Teresa, a negação da vida sem Teresa enquanto vitória e consagração de Simão.

No cômputo geral, até porque análises ao Amor de Perdição e livros que o estudam não são poucos, poderei reforçar a importância deste livro para a literatura portuguesa enquanto um verdadeiro marco no romantismo português. Camilo Castelo Branco, nesta peça sobre o Amor e sobre os seus mártires, não faz cerimónia ao recorrer a recursos deste período e a antecipar alguns dos elementos que, mais tarde, viriam a marcar o Modernismo.

Edições

São várias as adaptações cinematográficas, literárias e teatrais de ‘Amor de Perdição’. Ora vejam:

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