Игрок, Igrok (O Jogador, 1866), Fiódor Dostoiévski

jogador

«O Jogador» foi publicado em 1866, ano em que saiu também «Crime e Castigo», volume que inaugurou esta colecção das obras de Fiódor Dostoiévski, sendo também a primeira a ser traduzida directamente do russo. Passado na Alemanha, num ambiente de casinos, Aleksei Ivánovitch destaca-se como figura principal – um jovem com um forte sentido crítico em relação ao mundo que o rodeia, mas carente de objectivos, que descobre em si a paixão compulsiva pelo jogo. Dostoiévski expõe as personagens nas suas motivações mais íntimas, com humor e ironia, criando uma obra simultaneamente viva e profunda, na melhor tradição dostoievskiana. O fascínio torturado dos jogadores adequa-se genialmente ao tratamento de temas caros ao autor, e ainda o descontrolo e o desespero, as paixões que raiam a loucura e a solidão sem perspectivas, além de uma análise social impiedosa, por vezes satírica. O Jogador, uma das obras mais lidas deste autor, tem muito da experiência do próprio Fiódor Dostoiévski, que também foi um jogador compulsivo durante vários anos.

Apreciação

Será estranho dizer que Fiodor Dostoievski é como a Coca-Cola descrita por Fernando Pessoa? Primeiro estranha-se, depois entranha-se. Talvez seja, mas a verdade não anda longe desta submersão na literatura russa com um dos seus mais ilustres escritores. Quem já leu alguns dos seus romances de referência, como ‘Crime e Castigo‘ (1866) e ‘O Eterno Marido‘ (1870), poderá encontrar neste pequeno romance alguns dos elementos mais característicos da escrita deste autor: o recurso a componentes que exploram a autodestruição, a mediocridade e a fraca auto-reflexão.

Numa perspectiva mais próxima das ciências, e em particular da psicologia, este livro aparenta espelhar uma face de Dostoievski enquanto jogador inveterado. A criação e o desenvolvimento da sua personagem viciada no jogo resultam numa confissão do que é este vício enquanto condição patológica. Não é de estranhar, pois, que décadas mais tarde Sigmund Freud tenha recorrido a esta obra para analisar o vício no jogo como doença.

Em ‘O jogador’, acompanhamos mais um protagonista cheio de dúvidas existenciais e de identidade, caracterizado pela falta de objectivos na vida e pela submissão às mais tentadoras e negativas experiências. Afastando-se da noção do que é certo ou errado, Aleksei Ivánovitch espelha mais uma vez o absurdo que é a personagem deixar-se levar pela situação e pela vida e a influência que a ausência de carácter exerce sobre si. Em toda a narrativa, Ivánovitch prova ser uma pessoa complexa ao não resistir a impulsos fortes no relacionamento com os demais e ao mostrar alguma dificuldade e frustração ao tentar resolver os obstáculos que lhe surgem, por pequenos que sejam.

Sem conhecermos o seu passado, e apenas sabendo que Ivánovitch se submete como preceptor de uma família como forma de sustento, acompanhamos o seu dia-a-dia durante um período relativamente curto na procura da sua imagem e defesa da sua frágil honra, indagando num ambiente pouco saudável entre pessoas que o influenciam e o levam a mergulhar mais na mediocridade, afastando de perspectivas que poderão ajudá-lo, de facto, a encontrar o seu eu.

The interior of the Gambling House at Wiesbaden, from Actual Sketches in the Salon, publicado na Harpers Weekly a 7.10.1871

The interior of the Gambling House at Wiesbaden, from Actual Sketches in the Salon, publicado na Harpers Weekly a 7.10.1871

Agora, perguntava-me de novo: amo-a? Ou melhor, respondi-me novamente, pela centésima vez, que a detestava. Sim, odiava-a! Havia momentos (sobretudo depois das nossas conversas) em que teria dado metade da minha vida para estrangula-la! Juro-o. Se tivesse sido possível, ainda há momentos, cravar-lhe no peito um punhal bem afiado, julgo que o teria empenhado de boa vontade.