Aparição (1959), Vergílio Ferreira, por Paulo Neves da Silva

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Plano Nacional de LeituraLivro recomendado para o 10º, 11º e 12º ano de escolaridade, destinado a leitura autónoma. Um dos livros mais emblemáticos e mais lidos de Vergílio Ferreira. Capa especial comemorativa dos 50 anos da sua primeira edição. «Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro. Uma lua quente de verão entra pela varanda, ilumina uma jarra de flores sobre a mesa. Olho essa jarra, essas flores, e escuto o indício de um rumor de vida, o sinal obscuro de uma memória de origens. No chão da velha casa a água da lua fascina-me. Tento, há quantos anos, vencer a dureza dos dias, das ideias solidificadas, a espessura dos hábitos, que me constrange e tranquiliza…»

Apreciação de Paulo Neves da Silva

Uma autêntica epopeia que aborda frontalmente e sem rodeios a complexa temática dos insondáveis caminhos que tomamos para nos conhecermos a nós próprios ou resolvermos as nossas dúvidas existenciais, «Aparição» é um romance que deslumbra pela obstinada busca de Alberto Soares, o narrador, que na sua evidência quase divina do mistério da vida (na revelação instantânea de si a si próprio) que entende traduzível numa explicação nunca completamente encontrada das razões e sentido da existência do Homem, inquieta tudo e todos na pacata cidade de Évora, onde, destacado para dar aulas no Liceu, conhece a família dos Noronhas e as três irmãs, Ana, Sofia e Cristina, a quem vai afectar de forma dramática ou involuntária os seus destinos.
Gerador de conflitos apesar da sua conduta tímida e discreta, as questões existenciais de Alberto acabam sempre por vir ao de cima e aos poucos azedam todas as relações criadas por este, possuidor de um passado onde desde tenra infância se inquietou com o mistério da existência, e, sempre renegando todos os caminhos facilitadores do espírito, tais como dogmas, doutrinas e religiões, Alberto distancia-se de tudo e de todos na incompreensão hostil que lhe é movimentada.Entre uma Sofia que partilha dos seus pensamentos mas que radicaliza a sua existência por, tal como Alberto, só lhe fazer sentido viver o presente, e então vive-o de uma forma cruel para todos os outros com consequências trágicas devida à forma como brinca com os sentimentos dos outros; uma Ana que é atraída pelo pensamento de Alberto mas que lhe move uma resistência tenaz, até se deixar cair na religião como tábua de salvação; uma Cristina que representa o ideal de pureza e cuja presença roça o divino na forma como se dedica à música, inspirador de Alberto na sua busca existencial – um trio de destinos que se vai resolver no choque de personalidades e ideias com Alfredo, marido de Ana e defensor de uma atitude simplista de viver e deixar viver, Chico, secreto apaixonado de Ana e opositor acérimo de Alberto na sua complicada visão da vida, Carolino, ingénuo rapaz que se deixa cair nas malhas das ideias de Sofia e Alberto num triângulo amoroso de contornos muito perigosos.Diálogos e desenlaces curiosos em torno das opções espirituais de vida de cada um tornam este romance extremamente interessante embora um pouco denso. Directo e abrupto no desenlace da narrativa, a grandes reflexões ou discussões seguem-se radicais acções, colocando a nú a inquietude de cada um e a forma como se protege ou ataca nos seus medos, e a orientação final que encontra para se cumprir a si próprio no sentido que encontra para a sua vida ou para a justificação da sua existência. Cada homem é único e cada um tem a sua verdade. Bem ou mal, de forma violenta ou pacata, cada um encontra ou termina o seu caminho, com soluções diversas revelando cada uma um tipo de sabedoria que nem sempre Alberto compreende mas que sente terem o seu fundo de consistência, consistência essa da qual Alberto encontra muitos lampejos que se intersectam com a sua procura, sôfrega e nunca resolvida até ao fim dos seus dias, não obstante a evidência que sente de si próprio – sinto, sinto nas vísceras a aparição fantástica das coisas, das ideias, de mim – e que o reconhecimento da morte ajuda a perceber o que de extraordinário se perde.

Fecho o álbum, acendo um cigarro. Para lá da janela atinjo a linha azul do horizonte que se desvanece na tarde. Penso, penso. Não, não penso: procuro. Outra vez, outra vez. Não, não quero «saber», sei já há tanto tempo… Mas nenhum saber conserva a força que estala no que é aparição. Porque o escrevo de novo? A verdade é que nada mais me importa. E, todavia, um estranho absurdo me ameaça: quero saber, ter, e uma aparição não se tem, porque não seria aparecer, seria estar, seria petrificar-se. Queria que a evidência me ficasse fulminante, aguda, com a sua sufocação, e aí, na angústia, eu criasse a minha vida, a reformasse. Mas uma reforma, uma regulamentação é já do lado de fora. Quem é fiel a uma certeza e a pode «ver» quando lhe apetece? A fidelidade é então só teimosia ou cedência à parte convencional da «nobreza de carácter», da «honradez». Não é isso, não é isso que eu quero. Em que iluminação eu acredito quando falo em nome dela e a imponho a Ana, aos outros? Falo de cor – a iluminação é então a minha noite de secura. Por isso, quando ela volta, eu me abro à sua devassa, à acidez da sua presença. Por isso eu recebo ainda agora e falo dela e me aqueço e queimo ao seu lume. Não escrevo para ninguém, talvez, talvez: e escreverei sequer para mim? O que me arrasta ao longo destas noites, que, tal como esse outrora de que falo, se aquietam já em deserto, o que me excita a escrever é o desejo de me esclarecer na posse disto que conto, o desejo de perseguir o alarme que me violentou e ver-me através dele e vê-lo de novo em mim, revelá-lo na própria posse, que é recuperá-lo pela evidência da arte. Escrevo para ser, escrevo para segurar nas minhas mãos inábeis o que fulgurou e morreu.
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Opinião retirada do Citador a 17.02.2014.