Bibliotecária de Auschwitz (2013), Antonio G. Iturbe

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Auschwitz-Birkenau, o campo do horror, infernal, o mais mortífero e implacável. E uma jovem que teima em devolver a esperança. Sobre a lama negra de Auschwitz, que tudo engole, Fredy Hirsch ergueu uma escola. Num lugar onde os livros são proibidos, a jovem Dita esconde debaixo do vestido os frágeis volumes da biblioteca pública mais pequena, recôndita e clandestina que jamais existiu. No meio do horror, Dita dá-nos uma maravilhosa lição de coragem: não se rende e nunca perde a vontade de viver nem de ler porque, mesmo naquele terrível campo de extermínio nazi, «abrir um livro é como entrar para um comboio que nos leva de férias».

Apreciação

Não são poucos os livros que falam da segunda guerra, nem poucos os que retratam alguns dos maiores horrores vividos no século XX na Europa. ‘A bibliotecária de Auschwitz’ enquadra-se na categoria de livros que partilha testemunhos romanceados de pessoas que (sobre)viveram no Holocausto, podendo este título ser arquivado junto de outros tantos como ‘A lista de Schindler’, ‘O pianista‘ ou ‘Maus‘. Este é um tema que continua a precisar de muita tinta e que não se gastará num futuro próximo, pelo que Iturbe aproveitou a boleia para tornar este livro não numa obra-prima, mas num compendium de referência com relatos de pessoas que viveram entre paredes nos campos de concentração na Polónia. Pelo empenho, pelo realismo, pela descrição absolutamente nua e crua, Antonio G. Iturbe merece um lugar de excelência quando falamos da divulgação de experiências deste período negro da Europa.

Acompanhando Dita, uma rapariga de 14 anos que se torna a bibliotecária do campo familiar de Auschwitz, conhecemos ao pormenor o dia-a-dia de famílias que foram alojadas neste espaço confinado e ficamos a conhecer os verdadeiros objectivos da Alemanha nazi com a criação deste recinto: iludir os aliados, através de hipotéticas visitas da Cruz Vermelha, ao lhes mostrar como são bem tratados os judeus nos campos de concentração, desincentivando-os a mergulhar mais intensamente nesta fábrica da morte. Com uma escrita sagaz, cortante, Iturbe descreve sem dó nem piedade todos os mecanismos utilizados pelos nazis para manter oleada esta máquina que destrói vidas, ilustrando com frieza todos os recursos humanos e processuais que Auschitz-Birkenau envolve.

Sem revelar pormenorizadamente as motivações e segredos individuais dos agentes das SS, Iturbe espelha-os como homens sem humanidade, animais autênticos que têm como único objectivo libertar-se dos empecilhos. Mengele, o médico permanente nestes campos que ficou conhecido pelas suas experiências inomináveis, é um dos agentes com que deparamos com maior frequência e que acabamos por abominar tão facilmente como nos aterrorizamos no virar de cada página. Por seu lado, os judeus estão à mingua, à beira da morte, com uma fragilidade física e mental tão absurda que ficamos com a sensação que se podem desintegrar com a menor das brisas. Ao longo da história, que dura bastantes meses, percebemos que aos prisioneiros que estão confinados, que são maltratados, chantangeados e ameaçados, apenas não lhes falta algo que determina o seu destino: esperança.

Não são muitos os livros que me impressionam ou que se agarram a mim de forma tão intensa, mas certamente este é um deles. Porque há uma enorme comunidade a nível mundial que tem feito um esforço para que este terror não caia no esquecimento, o meu papel neste momento é partilhar a grandiosidade deste livro. Re-co-men-do.