Holocausto Brasileiro (2013), Daniela Arbex

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Neste livro-reportagem fundamental, a premiada jornalista Daniela Arbex resgata do esquecimento um dos capítulos mais macabros da nossa história: a barbárie e a desumanidade praticadas, durante a maior parte do século XX, no maior hospício do Brasil, conhecido por Colônia, situado na cidade mineira de Barbacena. Ao fazê-lo, a autora traz à luz um genocídio cometido, sistematicamente, pelo Estado brasileiro, com a conivência de médicos, funcionários e também da população, pois nenhuma violação dos direitos humanos mais básicos se sustenta por tanto tempo sem a omissão da sociedade.

Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros da Colônia. Em sua maioria, haviam sido internadas à força. Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava ou que se tornara incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas violentadas por seus patrões, esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento, homens e mulheres que haviam extraviado seus documentos. Alguns eram apenas tímidos. Pelo menos 33 eram crianças.

Apreciação

Começando a ler as primeiras páginas deste livro, facilmente somos iludidos pela forma como a autora narra a história. Aquilo que parece ser a introdução de um romance literário é, na verdade, um compêndio de acontecimentos que tiveram lugar num local recôndito e que foram partilhadas pelas pessoas que as viveram. Longe de ser uma história ligeira, ‘Holocausto brasileiro’ expõe as atrocidades que mais de 60.000 pessoas viveram ao longo de décadas num manicómio.

Daniela Arbex, jornalista, revelou as informações e testemunhos que compilou ao longo da sua investigação acerca das vivências em Colônia, um hospício onde eram forçosamente hospitalizados todos aqueles que não eram considerados normais e que, de uma forma ou de outra, eram um entrave ao bem-estar e/ou disfuncionalidade da sua família. Embora não se trate de um campo de extermínio ‘per se’, Colônia é descrito como um local onde se viveram enormes atrocidades que desrespeitam todo e qualquer direito humano, levando à morte e à loucura de milhares de pessoas ao longo do século XX.

Se for possível comparar, torna-se claro que Daniela Arbex transpôs para este livro algumas das mais antigas e horrendas formas de exploração do ser humano, nomeadamente no que respeita à escravatura, racismo, xenofobia e alienação social. De certa forma, esta chamada de atenção vem reforçar a importância para os direitos humanos como paradigma sob o qual deve assentar qualquer sociedade, rejeitando a ideia de que um sistema puramente burocrático, reactivo, financeiro e administrativo possam continuar a dominar as áreas de interesse público e, neste caso, de saúde pública.

Na verdade, a autora deste livro foi uma das pessoas que ajudou a dar a conhecer este espaço, que apenas muito recentemente foi revelado como um local de tortura. Ao longo da sua investigação, partilha testemunhos de dezenas de pessoas – colaboradores e pacientes, descrevendo as barbaridades que ali tiveram lugar, nomeadamente em termos de higiene, saúde, segurança. À semelhança do que aconteceu durante a segunda guerra mundial, também aqui as pessoas foram depositadas para minguar: vestidas com uma ou duas peças de roupa, ou menos nuas, estas pessoas passavam o dia a vaguear num pátio ao ar livre, independentemente do tempo que se fizesse sentir, por entre fezes e esgotos, de onde bebiam para matar a sede, e durante anos a fio.

Por serem homossexuais, deficientes, vítimas de violação, entre tantos outros, pelo menos 60.000 pessoas foram confinadas sem justificação ou salvação, sendo tratadas como marginais e como ‘doidos’ que não mereciam qualquer direito a condições mínimas para (sobreviver). Um dos casos que maior choque causou quando este caso foi descoberto foi uma criança deitada e coberta de moscas que foi fotografada, assumindo-se que estava morta. Não estava.

No ‘fim do mundo’, em Barcarena, Minas Gerais, só começou a chamar a atenção nas últimas décadas no século XX, altura em que o ‘passa-a-palavra’ levou um documentarista a filmar o hospício e a exibir publicamente as condições de vida dos hospitalizados. A nível local, apenas nessa altura se começou a debater sobre uma reforma do sector da saúde, e nomeadamente na área psiquiátrica, que deu grandes passos nos anos que se seguiram.

Encontrei este livro numa feira do livro, cuja primeira edição foi lançada este ano em Portugal. Por cá, penso que só há ainda em português do Brasil.