Entrevista a Luís Filipe Marinheiro

luis_filipe_marinheiroLuís Filipe Marinheiro mergulhou na poesia em Março de 2013 com o lançamento de “Um Cândido Dilúvio – Acto I e Sombras em Derivas – Acto II” e «Silêncios» em Dezembro desse ano. Um ‘eu’ que se afasta da literatura académica, um poeta que sangra, um homem que fala, proclama, escreve. Luís Filipe Marinheiro lançou no passado 6 de Dezembro em Lisboa a sua terceira obra “Noutros rostos”, 370 poemas inéditos em verso, distribuídos por 400 páginas sem índice, títulos, letras maiúsculas ou pontuação.

Em entrevista ao Folhas de Papel, Luís Filipe Marinheiro explica o que é e não é a poesia, a importância das letras para as pessoas e o afastamento e cruzamento entre a poesia e a prosa. Na verdade, é isso que pretendemos na rubrica “Falemos de livros”: mostrar como todos, de uma forma ou de outra, precisamos de livros para nos encontrarmos e crescermos.

Respeitando o estilo do poeta, a entrevista dada foi transcrita com minúsculas de forma a reforçar a importância da expressividade e da linguagem.

Quem é Filipe Marinheiro?

cito o que disse na última entrevista à imprensa: sou um eu e todos os outros meus eus em turbilhão obscuro. sou também os outros todos… talvez nem sequer exista. como disse o arthur rimbaud «Que vida! A verdadeira vida está ausente. Não estamos no mundo.». quem sempre esteve certo foram o Rimbaud e o Sr.Herberto Helder…

Tem alma de poeta?

não sei o que é ser ou ser-se poeta muito menos o que é a poesia. quando souber responder a essas questões terei completamente louco dos miolos ou então morto numa outra dimensão… mas sei que a minha alma e espírito sentem através das palavras e daquilo quanto escrevo.

Como nasceu esta paixão pela poesia, pelas letras?

cito o que disse na última entrevista à imprensa: nunca me interessei ou interessarei alguma vez pela dita “literatura”. essa que é meramente: académica, métrica, canônica, intelectual = um circo de celebridades que não sabem o que é uma lâmina acesa de lume a esgaçar-lhes de alto a baixo os miolos da cabeça retalhando depois o coração a ferver de amor e paixão eterno. todo um sangramento sensível. terrível. eu sou um contrário de tudo isso. não, não quero essa “literatura” para mim. não quero ser confundido com o literato. contudo respeito-os. tenho sim amor pela escrita, leitura e meditação poética. a origem desse amor genuíno e silencioso e obscuro surgiu quando certo dia um tio avô meu me levou a atravessar a penumbra do corredor a arder de escuridão da sua casa/museu até alcançar a sua biblioteca. fiquei completamente aturdido. Absorto. pensativo. pensava. senti tudo aquilo à minha volta. os livros: sentia-os contra alma e o espírito. deveria ter uns 7 anos… naquele momento descobri o silêncio e a eternidade. tudo tava  escuro naquele compartimento. senti-me o meu verdadeiro eu.

Qual o percurso do Filipe Marinheiro até ao momento no sector literário?

publiquei o primeiro livro, “Um Cândido Dilúvio – Acto I e Sombras em Derivas – Acto II”, em Março de 2013 e «Silêncios» em Dezembro de 2013 sob a chancela da Chiado Editora: uma brutal regurgitação e experimentação das minhas trevas e patologias. nem sei o que escrevi e como os escrevi… mas sentia tudo cá dentro a queimar a inflamar qualquer coisa maior, um tremendo desastre e desolação melancólica… no dia 29 de novembro lancei em aveiro a minha 3.ª obra «noutros rostos», e no próximo dia 6 de dezembro em lisboa na livraria ler devagar na lx factory. neste momento estou a rever a nova obra que será publicada talvez em 2015 escrito com suor, sangue e medo: «escuridões» escrita em prosa poética com cunho amplamente auto-biográfico…

Há diferenças entre os leitores de poesia e os leitores de prosa?

depende do tipo e sensibilidade e alma do leitor. a prosa também pode ser em poesia. por vezes misturam-se, entrançam-se sem darmos por isso. num sentido geral, sim, acho que existe alguma diferença no tipo de leitor. já constatei isso nestes 2 anos, desde que comecei a escrever poesia. as sensibilidades são distintas, mas claro que existe excepções à regra se é que existe regra alguma por sobre os leitores. em entrevista à ler n.º5 (inverno de 1989) sob a responsabilidade do francisco josé viegas, o poeta al berto a certa altura afirma numa das suas belíssimas respostas: «o Herberto helder tem razão quando diz que está tudo misturado: não se sabe quando é que a poesia não dá origem a um romance, quando é que um ensaio não é um romance, quando é que no interior de um ensaio não aparece um poema… não vejo por que é que essas coisas hão-de ser catalogadas. Há páginas de grandes romances que são grandes páginas de poesia. bom, mas isto é mais um pressentimento que uma certeza que o início de uma teoria… é uma interrogação. o meu problema é que sempre li mais prosa que poesia. na verdade, a poesia aborrece-me mais. não é bem isso… é no sentido de que ocupa um espaço menos nas minhas leituras. a poesia é assim: abro um livro, leio este poemas, leio aquele, depois arrumo, um dia volto…» então, concordo com essa mistura sim! com o facto das coisas não terem que ser necessariamente  catalogadas, soa-me muito académico a linguagem canónica. tenho uma opinião contrária a esse sistema e pensamento. bem o meu pressentimento é que cada leitor é único e diferente. no entanto, tenho a certeza que o leitor poético tem um outro tipo de sensibilidade e expressão interior… leitor é um leitor e está sempre predisposto para algo mais… seja prosa ou poesia ou ensaio ou outro género…

A poesia é um estado de espírito? Ou será que a leitura de poesia pode ser ‘trabalhada’ pelos leitores?

como transmiti atrás, não sei o que é a poesia, por isso, é-me impossível e doloroso responder a essa questão tão sensível. sei que o meu espírito chora, sangra e arde por dentro em turbilhão… o meu estado de espírito sofre pela alma e sou naturalmente melancólica, solitário e alegre. concordo com a segunda parte da pergunta, acho, totalmente, que o leitor trabalha infinitamente a poesia do poeta. perlonga-a até à morte.

Se as taxas de literacia em Portugal ainda não são as ideais, e considerando que  maioritariamente os Portugueses optam pela prosa, que medidas considera que poderiam ter tomadas para contribuir para melhorar os hábitos de leitura e, em particular, da poesia?

que as pessoas procurem e descubram por elas próprias a poesia, que sejam curiosas! mexam-se! desloquem-se! eu fui curioso! mas também é verdade que a poesia veio ao meu encontro de forma muito natural e subtil e não o contrário, aconteceu tudo de maneira estranha, inexplicável, embora acredite na dicotomia dinâmica das coisas. o tempo e a gravidade atravessam-se, esticam-se, dobram-se, torcem-se e tocam-se como um paradoxo a um corpo e mente. as pessoas enquanto potenciais leitores de poesia também tem o poder e as forças de a descobrirem e lerem-na, se se disponibilizarem a isso claro está. há que se predispor…

quaisquer medidas são politiquices governamentais ou académicas. não colaboro com esses ideais. sou a antítese disso. não gosto de regras ou medidas. é mais uma questão que infelizmente não sei responder de forma científica. desculpem-me…

Para além da poesia, quais os seus géneros literários de eleição?

poesia, poesia, romance à franz kafka e algum ensaio de teatro como por exemplo o de jean paul sartre…

De forma geral, tem alguns autores de eleição que o tenham influenciado na sua demanda pela poesia?

são tantos… enfim, vou enumerar os que se me entranham e me fazem sangrar: Arthur Rimbaud, Herberto Helder, Al berto, António Ramos Rosa, Joëlle Ghazarian, Mário Cesariny, Franz Kafka, Paul Verlaine, Lautréamont, Stéphane Mallarmé, Charles Baudelaire, Paul Bowles, Antonio Gamoneda, Albano Martins, Jorge Sousa Braga, Fyodor Dostoevsky, Sartre, Camilo Castelo Branco, Urbano Tavares Rodrigues, Gonçalo M. Tavares, Boris Vian, entre muitos outros…

Que obras o marcaram mais?

diversas! a que mais me marcou sem dúvida alguma foram as: «Iluminações e Uma Cerveja no Inferno» da assírio & alvim e o «Rapaz Raro» da relógio d’água. depois seguiram-se as obras de todos os poetas malditos franceses… e foi-me “apresentado” de maneira insólita a obra do Sr. Herberto Helder e Al berto, rasgaram-me de imediato as entranhas, o coração e o sentimento: tudo me fez sentido. descobria a luz, o sangue e as escuridões…

Para além de poeta, tem outras actividades profissionais? Se sim, como se cruzam e as conjuga?

a poesia ocupa 60% do meu tempo diário (leitura, pesquisa, escrita – imaginação, pensamento, imaginação, muito suor e trabalho: por fim, limpeza. nesta fase ainda mantenho a minha empresa (que tenho há 10 anos), uma pequena agência de marketing e comunicação, pois a minha formação é licenciatura em gestão e administração de marketing (2001 a 2006) pese

embora tenha vindo de humanidades no liceu.  a minha vida nunca fez muito sentido, sempre foi paradoxal, imprevisível… de manhã giro a empresa. à tarde e noite viro poeta. são os vários eu’s a funcionarem tal como a sobrevivência pela escrita. como a poesia não rende ou é auto-suficiente continuo ainda com a empresa. tem de ser. sou impelido a isso nesta fase pelo menos. separo muito bem esses eu’s. no início magoou-me imenso, ainda magoa: dilacera de alto a baixo. agora vou sabendo lidar com essa dor. mas tenho urgência em dedicar-me a 100% à poesia ao seu pensamento e reflexão…é realmente urgente… vou trabalhar muito para ser unicamente poeta…

Para quem tem projectos de escrita e se considera um poeta de sangue, que conselhos pode dar para os primeiros passos no sector literário?

ninguém se deve considerar poeta de sangue. isso é uma blasfémia contra a essência da poesia. ou se é ou não é. sente-se. sofre-se, corta-se por dentro, sangra-se pelo interior, as vísceras e órgãos rasgam-se, estrangulam-se, etc… depois trabalha-se muito, muito. há que saber parar. a própria poesia é que drena e muda o sangue do autor ou do potencial autor, a seguir sim, o poeta pode  escolher ser poeta de sangue e trabalhar para esse mito, para o seu mito, como eu, por exemplo, trabalho e sangro para o meu mito, seja o que ele significar para o universo…

quanto aos conselhos: só imaginação, estrutura, musicalidade, gramática e sintaxe, sabedoria, técnica de escrita e sensibilidade não chegam, nunca hão de chegar. há que trabalhar arduamente, muito e sempre. escavar e escavar. procurar e procurar. erguer todas as raízes e terra, erguer simultaneamente o bizarro, o oculto, o misticismo, a astronomia entre outras coisas mais… entretanto limpar e limpar. metaforizar e metaforizar: metamorfosear eternamente… transmitir a mensagem poética.