Ler é anti-social?

Standing Room Only

A propósito de uma conversa acerca da ‘insociabilidade’ que pode caracterizar as redes sociais e os smartphones, recentemente troquei algumas ideias sobre os benefícios e as desvantagens do acesso à tecnologia: se, por um lado, a tecnologia nos permite aceder a qualquer tipo de informação de forma imediata e contactar pessoas do outro lado do mundo, por outro, podemos estar a substituir experiências encontros ‘reais’ por um ecrã ao nos restringirmos às tecnologias sociais e de informação.

Foi nesse momento que surgiu uma enorme e pertinente questão: até que ponto é que os livros também contribuem para a não-socialização?

A bem dizer, ‘ler’ é um acto muito solitário: depois de abrirmos um livro, é fácil perdermo-nos em histórias, aventuras e adversidades de personagens, que bem podem ser verdadeiras, em lugares remotos e realidades paralelas. Depois partilhamos no blog, falamos com amigos, procuramos informação na Internet e aderimos a fóruns: a outro nível, a socialização também acontece. Embora isto seja algo realmente apaixonante para quem lê, impõe-se a dúvida: então e quem está de fora?

É consensualmente incomodativo estar com alguém que presta mais atenção ao smartphone ou que interrompe constantemente uma conversa com telefonemas e mensagens privadas. E é certamente desagradável partilhar o tempo com quem “quer passar o nível do jogo” ou precisa de “editar uma fotografia”. Não será, pois, constrangedor para uma pessoa querer passar tempo com outra que, por sua vez, opta por ler um livro porque “tem mesmo de o terminar” ou porque “está na parte mais interessante”?

Admito que esta questão me deixou a pensar, sobretudo olhando para o meu dia-a-dia. Tenho dias atribulados, numa correria, sempre com sítios onde ir, projectos a desenvolver, colegas com que trabalhar, família e amigos com quem estar. Para quem não tem tempo para se ouvir pensar ao longo do dia, a verdade é que um livro pode ser um enorme e delicioso escape. Aqueles minutos ou horas podem ser impagáveis para equilibrar um dia agitado.

Se a tecnologia é o que fazemos dela, dependendo de nós a forma como socializamos com quem está connosco e com quem está ‘ligado’, será que também os livros podem adquirir, em si, e a qualquer altura, características anti-sociais?