Entrevista a Mário Mendes de Moura

Esta semana, na rubrica “ Falemos de livros”, contamos com Mário Mendes de Moura, editor durante 60 anos em Portugal, Espanha e Brasil para conhecermos o seu percurso profissional inédito e explorarmos ainda mais o mercado editorial e a paixão pelas letras que, na verdade e como temos tipo oportunidade de confirmar com este programa de entrevistas, é transversal a inúmeras áreas, sectores e profissões, derrubando fronteiras e alcançado milhões.

Mário Mendes de Moura lançou o famoso autor Paulo Coelho e dedica-se agora, aos 90 anos, a mais um projecto na área editorial que promete ser um sucesso – como já é habitual da sua parte. Até à data, Mário de Moura editou mais de três mil títulos, que venderam mais de quarenta milhões de exemplares.

Vamos conhecê-lo melhor?

Quem é Mário Mendes de Moura?

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DEMOURA é o nome literário de Mário Mendes de Moura. Editou globalmente mais de três mil títulos e mais de quarenta milhões de exemplares.

Português, nascido em Lisboa (Campo de Ourique) em 1924. Estudos secundários e universitários em Lisboa, actividade política no MUD Juvenil. Emigrei em 1948 para a Venezuela e depois para o Brasil. Voltei a Portugal em 1988. Sou editor desde 1953 – criei a minha primeira editora com 29 anos (Andes) e mais tarde a Editora Fundo de Cultura especializada em Ciências Sociais, a melhor do sector e entre as cinco grandes do Brasil (excluindo as didácticas). Apoiei editorialmente (era o editor de Cadernos do Nosso Tempo) a candidatura de Juscelino Kubitschek. Criei outras editoras como a Páginas e a Vértice. Em Portugal criei em 1991 a Editora Pergaminho, depois a ArtePlural e a Bico de Pena e a GestãoPlus (chancela) e por fim a Vogais & Companhia. Devo ter editado mais de 3.000 títulos e colocado no mercado pelo menos 40 milhões de exemplares. Quatro filhos, dez netos e três bisnetos.

Como nasceu esta paixão pelas letras?

Sou um leitor compulsivo desde muito novo, oito anos. Talvez deva a minha paixão pelas letras devido à leitura de Emílio Salgari, de que li muitos títulos, Júlio Verne e sem dúvidas as empolgantes aventuras de Tarzan. Depois foi só continuar. Li alguns milhares de títulos nas mais diversas áreas. Dificilmente não estarei a ler nas horas de lazer. Vejo pouca televisão e só uso o computador para escrever (e só há dois anos).

Mário Mendes de Moura é uma referência no sector literário. Considerando a vasta experiência que tem nesta área, quais as principais diferenças que vê?

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partir de 2013 (aos 89 anos) dedica -se à escrita, sendo este o seu quarto título. Os anteriores foram uma novela e dois livros de contos, em pequenas edições digitais destinados a familiares e amigos. O Escultor de Almas, assim como O Contador de Estórias, são os primeiros títulos publicados na coleção Estação Primavera e na 4 Estações.

As diferenças são abissais se compararmos com o imediato pós Segunda Guerra Mundial que foi uma guinada cultural (e em todos os sentidos). Então o número de escritores e a quantidade de títulos lançados mensalmente era infinitamente menor, os editores seleccionavam melhor pois tinham menos recursos e a edição não estava subjugada ao marketing e à gestão financeira como hoje. Estas são as responsáveis pelo crescente baixar da qualidade literária que vem acontecendo.

A tecnologia interfere de alguma forma com a edição literária?

Evidentemente. Comecei a editar a partir de originais manuscritos ou batidos à máquina, que mandava compor em linotipo (linhas em chumbo), depois a impressão era com as páginas armadas com estas linhas. Hoje recebo um original num PDF, a paginação é rápida e limpa e versátil no word, as emendas são fáceis. A impressão é toda automatizada, nem sequer mais filmes, tudo digital, e o acabamento ultra automático. Isto na vertente do editor. Quanto ao autor a facilidade de escrever e emendar pela computação é infinitamente maior. Por isso mesmo, pode ser mais leviano a escrever, até porque o acesso a fontes de informação (certo que não muito confiáveis) é muito mais rápido e fácil.

Tendo em conta que trabalhou em diferentes países, quais são as principais características que caracterizam esses mercados?

Será difícil explicar em poucas linhas. Mas fundamentalmente aconteceu que as livrarias deixaram de ser pequenos polos culturais, nas mãos de livreiros cultos e de bom atendimento, orientadores do leitor, para se transformarem em grandes cadeias com um atendimento deficiente, apenas sofrível pelo uso do banco de dados informático disponível, quando há. Depois os livros passaram a ser vendidos como qualquer produto nas grandes superfícies, o que se ganhou em amplitude de oferta. O reverso da medalha é que a distribuição ficou muito cara pela capacidade de negociação dura destes grupos, o que encareceu o preço dos livros e esmagou os editores pequenos e médios que foram sempre quem editou bem e muito bem, mais do que os grandes grupos editoriais. E isto foi em geral o que se passou em todos os países, mais acentuado nos com mercado pequeno como o de Portugal e o do Brasil de há três décadas atrás, ou a Espanha, ou México ou Argentina. Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos tinham uma outra estrutura e não passaram para os extremos que relato. A França e a Itália continuam, em minha opinião, os mercados eticamente mais equilibrados e mais culturais.

E os leitores?

Os níveis de alfabetização melhoraram em todos os países onde eram muito fracos, mas em geral os de iliteracia aumentarem assombrosamente e a tendência será piorar. O achatamento cultural do ensino, para não dizer poder de imbecilização, e a Net, por um lado, e por outro a massificação dos produtos culturais de muito má qualidade e até nocivos, são os responsáveis.

E, já agora, o que considera que os leitores destes países têm em comum?

O mundo cultural é muito diverso, na velha Europa sempre houve três blocos muito distintos (os latinos, os saxónicos e os eslavos, isto falando de uma maneira simplista), e saltando para outros continentes as diferenças aprofundaram-se muito por razões raciais e religiosas. Mas por outro lado os meios de comunicação e os produtos culturais globalizados criaram pontes de convergência, que infelizmente não vejo que tenham aportado melhoras.

A literatura é um estado de espírito? Ou será que pode ser ‘trabalhada’ pelos leitores?

Sim, ler é um estado de espírito, Cada leitor lê de forma diferente a mensagem do escritor. Cada vez que reler em épocas diferentes lerá de forma diferente. É uma pena que de uma forma geral o escritor não possa ter o retorno do que os seus textos geram no leitor. Será isso possível no futuro ou é apenas ficção científica?

Que medidas, de forma geral, considera prementes para travar a iliteracia e contribuir para aumentar o interesse da população nas letras, nos livros, na leitura?

A melhor formação dos professores, a substituição dos programas de ensino em curso pelos métodos mais modernos e funcionais, aposta dos governos na educação com a visão que só a educação constrói uma nação (dizia Monteiro Lobato “Um país se faz com homens e livros”), a educação contínua das pessoas e não restrita à infância e adolescência, diminuição dos horários de trabalho para melhorar o lazer e criar empregos, etc etc.

Quais os seus géneros literários de eleição a nível pessoal?

Romance genérico, dos mais clássicos aos mais modernos, gosto muito de contos e de um bom romance policial. E poesia. Recomendo a leitura de um poema diariamente como antídoto ao stress.

Ultimamente, Portugal tem estado cada vez mais dividido no que diz respeito à adopção do novo acordo ortográfico, de forma a uniformizar o Português europeu com o Português do Brasil. O que acha deste acordo?

Acho que nem deveria opinar, pois não é um Acordo mas uma farsa elaborada por políticos que nem isso realmente são. Não sei se o português e o brasileiro são uma mesma língua e dois idiomas diferentes, ou vice-versa, mas sei que são e serão diferentes e similares. Pensar diferente é estar enganado ou querer enganar. O brasileiro partiu do português do século dezoito e evolui com toda a contribuição de outros idiomas e dialectos e, principalmente, com a capacidade inventiva e de comunicação, e a irreverência que lhe são características, contribui para que o idioma brasileiro tenha evoluído, e continue, de forma muito rápida e profunda. O português tem vivido espartilhado pela pequenez das suas fronteiras e a tirania dos filólogos, e ainda pela decisão de se diferenciar bem do espanhol, além de que em geral os portugueses se instalam numa cómoda forma estática de estar na vida (quando no país). São assim percursos muito diferentes que dificilmente levarão a um caminho comum, poderá vir a ser apenas um acordo amigo e inteligente. Porque, quem de direito, não olha para o caso Espanha/Países latino-americanos e Inglaterra/Estados Unidos?

Este é um tema analisado e abordado no Brasil, sobretudo no sector literário?

Sim, como aqui, agrupam-se dois clubes inimigos, um Benfica/Sporting ou Fla/Flu.

De forma geral, tem alguns autores de eleição que o tenham influenciado ao longo da vida a nível pessoal e profissional? Que obras o marcaram mais?

Tantos, desde os contistas russos e os franceses, Stefan Zweig, Remarque, Du Gard, Saint-Exupéry, Axel Munthe, Moravia, PitigrillZola, Torga e Eça, quando jovem, depois já a viver no Brasil, os grandes americanos: Heminguay, Dos Passos, Capote, O’Henry, Twain, Henry Miller, Steinbeck e tantos outros. Obviamente os brasileiros, como Jorge Amado, Bandeira, Graciliano Ramos, Veríssimo (Érico), Clarice Lispector, Nélson Rodrigues, Dalton Trevisan, Fernando Sabino, Machado de Assis etc. etc. Não posso omitir os sul-americanos talvez os com quem maior empatia: Garcia Marques, Neruda, Vargas Llosa, Borges, Cortazar, Carpenter, Fuentes, Paz, Ruldo etc. E dos portugueses modernos, sem dúvida Cardoso Pires e Lídia Jorge, Aquilino e Sena. E no campo dos policiais: Dashiel Hamlet, Raymond Chandler, Simenon, P.D.James e Patrícia Highsmith.

Para quem tem projectos no sector literário, que conselhos pode dar para os primeiros passos no sector literário?

Ler como se estivesse a escrever o que lê e a interrogar-se sobre todos os recursos que o autor usou para construir a narrativa e torná-la interessante. Depois escrever o que pensa e o que lhe vai na alma e finalmente reescrever até achar que caí bem no ouvido e na alma. Finalmente ter a coragem de tentar a edição. O que não, não é nada fácil. Mas não deve deixar de tentar.