Se isto é um homem (1947), Primo Levi

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Na noite de 13 de Dezembro de 1943, Primo Levi, um jovem químico membro da resistência, é detido pelas forças alemãs. Tendo confessado a sua ascendência judaica, é deportado para Auschwitz em Fevereiro do ano seguinte; aí permanecerá até finais de Janeiro de 1945, quando o campo é finalmente libertado.
Da experiência no campo nasce o escritor que neste livro relata, sem nunca ceder à tentação do melodrama e mantendo-se sempre dentro dos limites da mais rigorosa objectividade, a vida no Lager e a luta pela sobrevivência num meio em que o homem já nada conta.
Se Isto é um Homem tornou-se rapidamente um clássico da literatura italiana e é, sem qualquer dúvida, um dos livros mais importantes da vastíssima produção literária sobre as perseguições nazis aos judeus.

Apreciação

‘Se isto é um homem’ foi mais um dos livros que li no âmbito da minha pesquisa sobre relatos de sobreviventes do holocausto, tendo-me sido recomendado como uma das obras de referência dentro do género e do tema.

Lançado em 1947, este é um entre tantos registos que dá voz a sobreviventes de uma das maiores matanças humanas ao longo da História. Mais do que um livro, trata-se de um grito de afirmação para aqueles que defendem que o holocausto não aconteceu ou que foi hiperbolizado pela propaganda dos aliados aquando da vitória na segunda guerra mundial. A verdade é que Primo Levi nem sequer coloca em questão as dúvidas que possam surgir sobre o assunto, visto que a sua posição é tão vincada e a sua voz tão alta que, tal como para a grande maioria das pessoas, é impossível duvidar nem que seja de um único pormenor da sua experiência nos campos de concentração. Aliás, um dos seus principais objectivos com a partilha da sua experiência era precisamente dar a conhecer os horrores que se viveram durante o holocausto, contribuindo para que esses anos não fossem esquecidos e para atestar estudos e relatos de historiadores e escritores sobre estes terríveis acontecimentos.

Sendo fiel a si mesmo e acreditando na sua causa, Levi não se poupou a esforços para narrar a sua passagem pelos campos com a maior crueza e precisão possível, mesmo que isso signifique abalar leitores mais sensíveis e os espíritos mais críticos. Dotado de uma enorme clareza, Primo Levi é, sem sombra de dúvidas, um homem esclarecido cujos atributos intelectuais lhe salvaram a vida em Auschwitz. A forma como descreve aqueles seres humanos que se arrastam nos campos de trabalho, e que tão pouco de humanos já têm, denota a capacidade de análise e de compreensão de Levi face ao que lhe aconteceu.

A abordagem à humanidade do Homem (passando a redundância) é recorrente em todo o livro e nota-se, com um certo desconforto, que esta sua voz é a sua forma de se libertar dos terrores que viveu. ‘O que é o homem?’ e ‘De que é o homem capaz?’ são questões latentes no virar de cada página às quais o autor tenta repetidamente responder mas sem ser capaz de o fazer, pela simples impossibilidade de perceber sobre o que é capaz de fazer a falta de humanismo no Homem. Esta análise está intimamente relacionada com o que Levi considera que os nazis tentaram fazer nos campos: desprover os homens de vida, ainda que o seu corpo funcione. Afinal, determina que não é só o corpo, a máquina, que torna o homem um homem nem uma vida em vida, o que pode ser encontrado nas edições mais recentes do livro que incluem na introdução uma breve reflexão de Levi sobre o que é ser um homem:

“Pensem se isto é um homem
que trabalha no meio do barro,
que não conhece paz,
que luta por um pedaço de pão,
que morre por um sim ou por um não.
Pensem bem se isto é uma mulher,
sem cabelos e sem nome,
sem mais força para lembrar,
vazios os olhos, frio o ventre,
como um sapo no inverno”.
(1988).

A mágoa que sente é muita, mas a racionalidade – por ser mais forte que a carga emocional – leva a que o livro ganhe atributos de um livro histórico. Enquadrado numa realidade que parece que não lhe pertence, Levi consegue manter presente que o mundo é um local melhor e que a esperança no futuro, mesmo que em coisas tão pequenas como o calor do sol da Primavera que se aproxima, é o segredo para se sobreviver diariamente até que a salvação, seja ela qual for, chegue.

Ao contrário de tantas outras obras lançadas posteriormente com testemunhos de outros sobreviventes, ‘Se isto é um homem’ não é um livro que tenha adoptado a estrutura literária de romance, o que, de certa forma, credibiliza e confere uma carga emocional mais intensa a cada capítulo. Contudo, para quem, como eu, prefira histórias narradas com princípio, meio e fim e um enredo mais rico, ‘Se isto é um homem’ pode revelar-se um pouco denso e fastidioso.

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