Entrevista a Ademar Júnior

Ademar Júnior (3)

Ademar Júnior

Ademar Júnior é um dos autores do Cooltural, um blog que tem tanto de fascinante como de informativo. Focado em “literatura, cinema e afins”, este espaço tem vindo a ganhar notoriedade muito rapidamente na blogosfera, destacando-se pelas críticas bastantes completas sobre livros e respectivos autores: quando lemos um post com uma crítica a um livro, sabemos que poucas ou nenhumas dúvidas nos ficam. Inicialmente autor no blog ‘Papéis avulsos’, hoje Ademar conta com uma equipa para dinamizar este blog brasileiro que tanto tem crescido. Vamos conhecê-lo?

Cooltural. Qual a história deste blog?

A ideia de criar o blog veio logo depois que me vi viciado em ler. Eu já havia tentado outros blogs pessoais que não deram certo. Então me veio a ideia que seria legal fazer um blog para falar sobre minhas impressões de leitura – na época eu mal sabia escrever sobre o que lia, rsrs, em geral era um ou dois parágrafos. Aos poucos a gente vai pegando jeito. No início não conhecia tantos blogs com a temática, então era legal poder se expressar sobre as leituras e ir conhecendo novos leitores por aí. A princípio, o blog começou como ‘Papéis Avulsos’, em referência ao livro de contos de Machado de Assis, mas logo mudou para ‘Cooltural’, pois tinha uma pegada mais ampla que incluía filmes, séries, teatro, e tudo que mais interessasse. Hoje já estamos com mais de 5 anos na blogosfera.

Como organizam a informação internamente?

Ademar Júnior (Equipe do Cooltural)

Equipa do Cooltural

Atualmente o Cooltural é administrado por mim e mais dois colaboradores, Mailson e Vanessa.  O blog recebe colaboração de outros amigos também, mas esses colaboram esporadicamente. Não temos uma periodicidade fixa para os posts, vamos postando à medida que eles vão ficando prontos. De início tínhamos um roteiro de postagens, mas gerava certa pressão nos colaboradores que tinham outras tarefas em suas vidas, rsrs, aos poucos fomos abandonando isso para que ele voltasse a ser um hobbie que fizéssemos por prazer. Em geral, eu faço o papel de editor chefe, sugiro algumas pautas ou faço a revisão final dos posts dos colaboradores. Mailson e Vanessa, além de escreverem fazem o papel de revisores dos textos. E para organizar tudo vamos nos comunicando através das redes sociais.

Qual o principal objectivo deste blog de cultura?

O principal objetivo do blog é difundir a leitura e com isso incentivar para que as pessoas leiam cada vez mais. Mas não só a leitura, mas tudo aquilo que nos agrada dentro da cultura – nós acreditamos piamente que a cultura tem poder transformador, então sempre que possível gostamos de falar sobre cinema, teatro, TV, principalmente quando estes dialogam diretamente com a literatura. Além disso é uma forma de expor para as pessoas o que achamos sobre determinado autor, livro, filme, etc.

O Cooltural tem uma presença cada vez mais acentuada na blogosfera. Em que ferramentas e acções têm apostado para elevar a visibilidade?

Sim, temos crescido principalmente nesse último ano. Isso se deu em especial pela criação e utilização dos perfis do blog nas redes sociais. Acreditamos muito na influência dessas redes como ferramenta para o aumento da nossa visibilidade. O mais notório foi nosso perfil no Facebook, mas também estamos presentes no Twitter e Instagram, outros grandes aliados. Além disso, realizamos ações que aumentam o número de seguidores, como a realização de sorteios em parceira com outros blogs e editoras.

Têm programas de parcerias com editoras e outras entidades para dinamizar o Cooltural? Em que se traduzem?

Sim, o blog tem parceria com várias editoras. Algumas nos convidaram, outras se tornaram parceiras através de seleções que acontecem anualmente. O funcionamento da parceria difere de uma editora para outra, cada uma tem sua política que é comunicada no início de sua vigência. Mas de forma geral as editoras cedem os exemplares (físicos ou digitais) de livros para resenhas e sorteios, na contrapartida elas têm os livros divulgados no blog e nas redes sociais. No entanto, temos a liberdade de falar positivamente ou negativamente dos livros, não temos obrigação de falar bem sempre – elas têm ciência disso. Mas como na maioria das vezes só solicitamos os livros que já queremos ler ou de autores que gostamos, então provavelmente sairá algo positivo, rsrs, sempre lembramos de destacar os prós e os contras, nem tudo é perfeito.

Na sua opinião, em que se caracteriza o mercado literário no Brasil?

O mercado literário no Brasil tem crescido a cada ano. De 2013 para cá, esse crescimento foi ainda mais significativo. Principalmente com a chegada definitiva do mercado literário digital, que cresceu mais de 200% nesse período. As editoras têm tido bons resultados e isso possibilitou o crescimento e surgimento de pequenas editoras, assim como a permanência daquelas já consolidadas. Houve ainda a chegada de editoras estrangeiras por aqui como é o caso da portuguesa Saída de Emergência. Isso tudo porque leitores tem comprado cada vez mais livros, sejam eles físicos ou digitais. Isso é um ponto positivo, se o mercado está crescendo é porque novos leitores estão surgindo e estão lendo cada vez mais.

Considera que as taxas de literacia são positivas?

Sim. Há pesquisas que apontam que o brasileiro lê pouco, mas essas pesquisas se baseiam, em geral, em critérios de exclusão. Não acho que o brasileiro lê pouco, talvez ainda não seja o suficiente ou esteja aquém de outros países, mas temos crescido muito nesse quesito. Acontece que o brasileiro tem lido os gêneros que lhe aprazem, sejam eles modinhas, best-sellers ou clássicos. E leitura também é isso: prazer. A prova de que as taxas são positivas é o crescimento exponencial do mercado por aqui.

De acordo com a experiência que tem, nomeadamente por gerir um blog de cultura, o que lhe parecem os hábitos de consumo dos seus leitores?

Pelo que observo, através da interação dos leitores nas postagens, seja por comentários, número de visitas e interação nas redes sociais, o grupo maior de leitores que frequentam o blog é formado por jovens, então certamente os livros voltados para este público são os que se sobressaem. Os jovens estão sempre ligados no que está fazendo sucesso ou no que vem chegando de novidade. Mas por outro lado, recebemos também um público cativo de determinados gêneros, como a ficção-científica por exemplo. Nós tentamos ao máximo diversificar os gêneros que lemos para que assim nossos leitores conheçam muito mais além daquilo que estão acostumados a ler.

Há medidas revistas no Brasil para sensibilizar as pessoas para os hábitos de consumo de cultura?

Sim, existem. Embora ainda sejam bem pontuais, mas há diversos projetos e ações de ONGS, empresas, editoras e até mesmo blogueiros que visam difundir o hábito da leitura, em especial na infância para formação de uma geração de leitores. Para citar exemplos, há a campanha “Leia para uma criança” promovida pelo banco Itaú, que distribui livros infantis para entidades e atores de promoção da leitura; há as ações de “perder um livro” promovida por algumas editoras para incentivar a leitura e interação entre os leitores; e há ainda ações como “encontro às cegas com um livro” que alguns blogs tem promovido por aqui para dinamizar a experiência da leitura. Tudo isso vai contribuindo, mas ações inovadoras seriam bem vindas.

A comunidade online, embora muito vasta, acaba por ser limitada no que respeita aos temas sobre que escreve no cultural. Nota muitas diferenças no contacto com bloggers de outros países?

Não vejo muita diferença nesse contato não, até porque todos os blogueiros que falam de livros se centram num objeto universalizado. Obviamente, cada blogger cria sua linha editorial, vamos dizer assim, então há aqueles que acompanham as tendências, há aqueles que focam apenas no seu gosto literário e há ainda aqueles que dosam as novidades para o público com seu próprio gosto. E isso está em todos os bloggers literários que acompanho, seja brasileiro, americano, português, etc.

Costuma acompanhar regularmente blogs de portugueses? Se sim, o que acha que caracteriza a sua forma de escrita e as suas preferências?

Eu acompanho poucos blogs portugueses, cinco ou seis no máximo, mas gosto muito dos que acompanho, o Folhas de Papel principalmente, pois foi um dos primeiros blogs que eu conheci há 5 anos atrás quando estava começando com o Cooltural. Não posso falar da blogosfera portuguesa como um todo, mas nos que eu acompanho, percebo um apreço especial pelos clássicos e, se não, pelos grandes nomes da literatura contemporânea. Em relação à forma de escrita, há muito do português clássico também, mas tenho notado uma aproximação maior para com o acordo ortográfico por parte de alguns blogueiros portugueses.

Ultimamente, Portugal tem estado cada vez mais dividido no que diz respeito à adopção do novo acordo ortogrático, de forma a uniformizar o Português europeu com o Português do Brasil. O que acha deste acordo?

Bom, o tema é controverso. No entanto, acho que sou mais a favor do que contra, uniformizar permite maior fluência na troca de informações, intercâmbios linguísticos e uma padronização no setor editoral principalmente, um brasileiro poderia adquirir um livro de Portugal, não lançado por aqui por exemplo, e não estranhar muito a forma de escrita, e vice-versa. Mas por outro lado, as particularidades entre o Português do Brasil e de Portugal preservam identidades e traços da história de cada povo, isso tem seu valor.

Este é um tema analisado e abordado no Brasil, sobretudo no sector literário?

É um tema abordado sim, mas acredito que a discussão maior seja no âmbito educacional. O setor literário se adapta mais facilmente a essas mudanças, não sem discutir, mas nos últimos anos passamos por uma grande mudança com a adequação das publicações em terras brasileiras para a Nova Ortografia da Língua Portuguesa, foi gradual, mas aos poucos tudo foi se adequando. Então acredito que para o setor literário seja mais fácil uma mudança desse tipo, a dificuldade maior é na educação, mudar regras já aprendidas, adequá-las, vejo um desafio maior aí.

Qual o seu género de livros preferidos?

Ademar Júnior (Parte da Biblioteca Pessoal)

Biblioteca pessoal de Ademar Júnior

 

Meu gênero de livros favorito hoje é sem dúvidas a ficção científica (sci-fi), me rendi a este gênero através das leituras de Philip K. Dick, Asimov e seus pares. Mas se me permite citar os meus três gêneros favoritos, são eles: a ficção científica, a literatura policial (thrillers) e a fantasia.

Perguntar-lhe qual é o seu livro preferido seria um enorme desafio, por isso peço-lhe que indique três como referência para os nossos leitores: quais os seus três livros de eleição e porquê?

Bom, escolher um é complicado, mas três é facílimo, isso porque os três são do meu autor favorito, Philip K. Dick. Então seriam eles: Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (livro que deu origem ao filme Blade Runner),  Fluam, Minhas Lágrimas, disse o Policial e Ubik. Mas para não me limitar muito, cito meus três favoritos extra-Philip-K-Dick: O Dia Curinga, de Jostein Gaarder; A Luneta Âmbar (e toda a trilogia a qual pertence), de Philip Pullman; e Licor de Dente-de-Leão, de Ray Bradbury. Os títulos citados são das edições brasileiras, rs, não sei como são os títulos dos mesmos em Portugal..

Tem alguma história curiosa sobre uma experiência com livros, leitura ou literatura?

Essa é a pergunta mais difícil, pois sou péssimo para lembrar deste tipo de situação. Não sei se tenho uma história curiosa, mas o mais interessante foi ser descoberto ao acaso por algum autor ou editora que leu um texto meu e daí surgiu uma grande amizade e parceria de trocas de ideias, já aconteceu algumas vezes, principalmente com autores. Por exemplo, lembro que uma vez escrevi sobre um festival de teatro lusófono, logo depois uma companhia de teatro portuguesa entrou em contato comigo para saber mais informações, e no ano seguinte eles estavam aqui no Brasil participando de uma nova edição do festival. Coisas assim são o que mais marcam.

Para quem está a iniciar-se na blogosfera literária, que conselhos dá para ajudar a enquadrar-se neste mundo online dos livros?

Bom, devo dizer primeiramente que não é tão fácil quanto se pensa. Para cativar um público e ser reconhecido, principalmente por este público, é preciso fazer um trabalho com esmero e isso toma tempo, é difícil conciliar com outras atividades. Mas o conselho principal é: fazer um blog primeiramente para você mesmo, escreva um blog que você gostaria de ler e visitar com frequência, quando você desenvolve a autocrítica fica mais fácil surgirem elogios de terceiros. Recomendo ter um cuidado com a língua na qual o blog é escrito; clareza na abordagem; escolher um layout, dando preferência àqueles mais limpos, que não cansem a visão do leitor; e por fim, mas não menos importante, criar vínculo com outros blogueiros, trocar ideias, experiências, comentários, visitas. E, já ia esquecendo, é preciso está presente nas redes sociais, interagir com o público que se quer conseguir ou que já tenha conseguido.