Acordei como acordam os tolos, cheia de felicidades (2015), Ione França

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Neste novo livro, Ione França apresenta uma coletânea de textos, que intitula de Cantos, reflexões sobre o seu quotidiano, em prosa poética. Poesia madura e de grande sensibilidade e espirito crítico que por vezes nos desafia. Magicamente, a autora envolve as palavras com mantos diversos, seja o da fantasia ou o da crueldade, o da angústia ou da ternura, o da dor ou da alegria, o da revolta ou da compreensão. Cada palavra é como a peça de um puzzle que a poetisa ensaia armar para construir um quadro que revela a sua inquietude pela mesquinhez e crueldade da alma humana, mas também o seu conhecimento e aceitação da beleza e das surpresas do mundo em que vivemos.

Apreciação

Ione França é uma escritora que consta nas minhas estantes há muito tempo, tendo sido o seu ‘O domador de almas’ que me surpreendeu e cativou desde a primeira página. A sua reflexão na escrita, tanto surrealista como emocionante, foi um dos principais elementos responsáveis por a ter como escritora de referência no género de prosa poética. ‘Acordei como acordam os tolos, cheia de felicidades’ é o mais recente livro desta autora, com lançamento previsto para Fevereiro e, digamos… tem de ser lido!

De uma sensibilidade profunda, a autora brinda-nos com uma série de pequenos textos (cantos) que colocam a nu a sua reflexão sobre os mais variados aspectos do seu quotidiano, destacando frequentemente dicotomias sobre dadas situações: estadias no estrangeiro com sensação de não-pertença; apreciação sobre a presença em cabeleireiros e reflexões sobre a necessidade de agradar face em detrimento à autenticidade; amor perpétuo de mãe face à dor e medo que tal envolvência encerra.

Os detalhes e observações que Ione França faz às suas experiências regalam-nos com uma riqueza muito subtil no que diz respeito à perspectiva da autora enquanto mulher, enquanto profissional, enquanto mãe e, ao mesmo tempo, enquanto mulher que envelhece e que se questiona sobre a passagem do tempo.

Na minha opinião, encarando os cantos como um todo, é sobre isso que este livro se debruça: sobre a aprendizagem com que o passado nos regalou; sobre todas as dúvidas que temos no presente, seja qual for a idade da pessoa; e sobre o futuro, que é tão incógnito quanto assustador. A morte, por outro lado, é um elemento que me parece estar latente em cada página, graças às alusões feitas ao medo de envelhecer, à dor da morte, ao passar do tempo, ao afastamento da vida.

Esta exposição, intencionada ou não, de receios tão profundos, despe a escritoria de quaisquer tabus e preconceitos, sendo perfeita e facilmente possível o leitor identificar-se com muitas das passagens. A extrema sensibilidade das palavras, a estrutura das frases e a escolha do sentido mostram claramente a humanidade da autora e a sua fragilidade enquanto ser humano que tem noção da sua mortalidade e do seu sentido de vida. A mera referência a se ‘acordar cheia de felicidades, como os tolos’ acaba por denotar precisamente essa delicadeza e tumulto emocional tão característicos das pessoas: o entusiasmo, a felicidade, as mudanças de humor, as incertezas, os devaneios, as confissões em voz baixa.

Adorei ler este livro, que terminei num ápice, deixando-me desconfiada apenas num pormenor: sei que nunca se devem julgar livros pela capa mas, fosse a capa diferente, e talvez me suscitasse mais interesse no caso de encontrar esta obra numa livraria. Graficamente talvez se denotem alguns elementos relacionados com temas esotéricos ou de auto-ajuda, o que não faz jus – de todo – ao conteúdo. Se tiverem a oportunidade, não deixem de ler!

Mais uma opinião sobre este livro:

As leituras do corvo