Tema a tema – Contos em português

Apaixonantes, acutilantes, viciantes. Os contos são pequenas obras muito mais concisas que um romance literário, respeitando uma estrutura muito mais simples e um fio condutor bastante mais linear, evitando o entrosamento entre várias histórias paralelas ou acontecimentos culminantes. Neste tema a tema, porque o género é tão vasto, a selecção recai apenas em autores de língua portuguesa. Curiosos?

O armazém e outras histórias, Patrícia Madeira

armazem_outras_estoriasCom temas muitos distintos, que vão do amor, à solidão, à velhice, ao sexo, à morte, à amizade, à unreality TV até ao fantástico, “O Armazém e Outras Estórias” revela-nos a ansiedade e a insegurança que temos connosco próprios, que jamais ousaremos contar a alguém, e a certeza que estamos sozinhos mesmo quando rodeados pelos nossos mais queridos. São 18 estórias escritas numa perspectiva individual e intimista, ilustradas por João Raposo.

Contos, Eça de Queirós

contos_eça_queirosApesar de mais conhecido pelos seus romances, Eça de Queirós escreveu também alguns contos, reunidos num só volume póstumo em 1902: “Singularidades de uma Rapariga Loura”, “Um Poeta Lírico”, “No Moinho”, “Civilização”, “O Tesouro”, “Frei Genebro”, “Adão e Eva no Paraíso”, “A Aia”, “O Defunto”, “José Matias”, “A Perfeição”, “O Suave Milagre”, “Outro Amável Milagre”.

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Na berma de nenhuma estrada e outros contos, Mia Couto

berma_nenhuma_estradaMia Couto é sem sombra de dúvidas o escritor africano de língua portuguesa mais conhecido e a sua obra, várias vezes premiada, está traduzida em diversas línguas. Surge agora “Na Berma de Nenhuma Estrada e Outros Contos”, um conjunto de 38 histórias, escolhidas pelo autor dos seus relatos curtos publicados na imprensa portuguesa e moçambicana. São histórias de um universo mágico, onde o fantástico e o sobrenatural coexistem com o quotidiano, com personagens intensas e uma capacidade de efabulação extraordinária, que nos prendem e nos encantam. E donde emanam estas histórias? “Vêm da berma de nenhuma estrada. Quero inventar um sítio onde me invente a mim, um sítio onde tudo seja possível outra vez, onde a palavra possa ter essa dimensão mágica. É desse não lugar que surge a escrita, mas ele pertence a um lugar meu, que é Moçambique, a minha infância.” (o escritor em entrevista ao portal ajanela.com)

Laços de Família, Clarice Lispector

lacos_familiaReunindo vários contos da autora, e com prefácio de Lídia Jorge, “Laços de Família” foi publicado em 1960. Os 13 contos foram escritos entre 1943 e 1955: “Devaneio e embriaguez duma rapariga”, “Amor”, “Uma galinha”, “A imitação da rosa”, “Feliz aniversário”, “A menor mulher do mundo”, “O jantar”, “Preciosidade”, “Os laços de família”, “Começos de uma fortuna”, “Mistério em São Cristóvão”, “O crime do professor de matemática” e “O búfalo”.

Contos da montanha, Miguel Torga

contos_montanhaComposto por 23 contos, neste livro Miguel Torga apresenta aos seus leitores textos que assentam mais em descrições do comportamento humano, das suas emoções e dos seus sentimentos do que em descrições de aspectos paisagísticos da zona geografica de que era originário o poeta. Citando alguns exemplos, em Maria Lionça, a personagem homónima personifica a ruralidade e a dignidade das mulheres transmontanas que, apesar de analfabetas, se impunham pelo respeito, pelos bons costumes e pela sua sabedoria popular empírica; em Bruxedo, a personagem Melra representa as superstições que, ao longo de muitas gerações, se foram enraizando na vida daquelas gentes, fazendo parte do seu dia-a-dia. Mais um livro de belos contos escritos pelo poeta transmontano. Apesar de, tal como referia acima, estes contos terem uma forte componente humana, as descrições das serranias porque Torga era conhecido estão presentes e algumas bem marcantes até. Um livro onde as pessoas são os heróis e os sobreviventes da suas vidas de miséria, de fome e de sofrimento.

As Mãos dos pretos, Nelson Saúte

maos_dos_pretosUma antologia da recente prosa ficcional moçambicana, que acima de tudo, transparece a históris de um povo. Uma oportunidade para reler alguns autores conhecidos e descobrir outros até agora não editados.

 

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Contar histórias

Contar histórias é uma das mais belas ocupações humanas: e a Grécia assim o compreendeu, divinizando Homero que não era mais que um sublime contador de contos da carochinha. Todas as outras ocupações humanas tendem mais ou menos a explorar o homem; só essa de contar histórias se dedica amoravelmente a entretê-lo, o que tantas vezes equivale a consolá-lo. Infelizmente, quase sempre, os contistas estragam os seus contos por os encherem de literatura, de tanta literatura que nos sufoca a vida!

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