A espuma dos dias (1947), Boris Vian

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«Chamaram-lhe alguns, a obra-prima do autor. E num prefácio que andou durante muito tempo colado ao seu “Arranca-Corações”, Raymond Queneau não hesitava perante o rótulo hierarquizante e audacioso: “o mais pungente dos romances de amor contemporâneos”.» Da Apresentação de Aníbal Fernandes.

Apreciação

‘A espuma dos dias’ chegou-me às mãos depois de ter visto a adaptação cinematográfica pelas mãos do fabuloso Michel Gondry que, como habitualmente, nos brindou com uma visão muito onírica de uma história comum. Que livro inspirador, então, poderia ser este que, por via das palavras, conseguia transmitir esta sensação de estarmos a viver num sonho?

Foi assim que Boris Vian me veio parar às mãos. Já conhecia o autor – não por obras publicadas – mas por ter sido autor de uma música polémica que tem tanto de doloroso como de emocionante: Le Déserteur, uma música anti-guerra que, na verdade, se trata de uma carta ao Presidente onde o autor admite desertar e afastar-se do campo de batalha para dar prioridade à sua vida, ao amor pela sua família, aos seus filhos e que, se for perseguido, se defenderá até à morte.

Foi, então, com muito interesse que comecei a ler este livro tão curioso mas, para meu desgosto, senti que não se trata – de todo – de um género de literatura que me chame a atenção. Enquanto senti que Gondry me envolveu imensamente com as suas personagens interpretadas por Romain Duris e Audrey Tautou, com as suas cores e com o movimento, nas páginas de Vian todo este surrealismo se me apresentou confuso e impessoal.

Enquanto que (sobretudo) em obras clássicas, o significado do livro está inerente e o leitor pode retirar o que pretenda ou precise, em ‘A espuma dos dias’ tudo nos é dado de bandeja, inclusive os cenários bizarros. Neste livro, recorrem-se a eufemismos e paralelismos vários para explicar e atenuar alguns elementos da narrativa.  Chlóe tem a infelicidade de ter um nenúfar a crescer no seu pulmão e Colin, seu marido, perde tudo o que tem para ajudar a sua mulher a curar-se. O seu lar, os seus objectivos, as suas “músicas redondas” minguam à medida que o nenúfar cresce e que a vida se esvai da personagem feminina. De forma concisa, é relativamente simples extrair o sentido que o autor pretendia dar e a mensagem que queria verdadeiramente transmitir: recorrendo a elementos fantasiosos, Boris Vian está a contar-nos o desvanecimento da vida deste casal devido a uma doença terminal: o sol deixa de entrar em casa, as divisões tornam-se claustrofóbicas, o chão que pisam torna-se sujo e quase intransitável.

“Cette histoire est vraie puisque je l’ai inventée”.

Enquanto isto decorre, acompanhamos também a vida dos melhores amigos do casal que, por ironia do destino, acabam por se ver encurralados numa situação criada gradual e conscientemente: a sua paixão por Jean-Sol Partre, como referência a Jean-Paul Sartre, leva-os à ruína amorosa e financeira. Todo este mundo criado por Boris Vian é rico em pormenores e em ideias: toda a realidade criada faz sentido naquele ambiente, permitindo que se encare o ridículo com naturalidade e que se entre pé ante pé num dia-a-dia muito sui generis, deixando-nos a reflectir nesta dicotomia: o que é verdade e prioridade para uns, não o é para outros.

Em todo o caso, talvez tenha sido a ridiculez e surrealismo que não me cativaram, nem por instantes, página a página. Por preferir obras de maior rigor e com uma análise tanto mais precisa como mais aberta a interpretações subjectivas é que este livro me custou a terminar. No entanto, independentemente do teor da história e da tristeza e miséria que vai crescendo abruptamente, adorei o filme porque, visualmente, é necessário dar crédito a Gondry e à sua equipa. A adaptação é perfeita.

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Romain Duris, Audrey Tautou, Michel Gondry,

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