Uma noite em casa de Amália (2014), Filipe la Féria

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 Dezembro de 1968. Dezanove de Dezembro. Vinicius parte amanhã para Roma onde irá passar o Natal. Esta noite em casa de Amália há uma pequena festa de despedida. Por entre a penumbra que está na sala começo a distinguir alguns rostos: a Amália, o Vinicius, a Natália Correia, o Oulman, o José Carlos Ary dos Santos… mas nem há tempo para saudações; é justamente o Ary dos Santos quem vai recitar…

David Mourão Ferreira

Apreciação

‘Uma noite em casa de Amália’ é uma peça em dois actos escrita por Filipe la Féria e que esteve em cena no Teatro Politeama, Lisboa, com uma produção rica e um resultado intenso. Esta peça de teatro foi editada pela Chiado Editora, possibilitando-nos mergulhar nesta tertúlia de forma literária de forma mais branda e, ainda assim, mais aprofundada.

Se, por um lado, ao se assistir a uma peça de teatro, estamos mais envolvidos graças à produção (cenários, guarda-roupa, acessórios, entre outros), por outro pode acontecer perderem-se pormenores nos diálogos, nas mensagens subliminares, no conteúdo escondido. Por esse motivo, o facto de termos acesso à pela escrita (ao argumento propriamente dito) permite-nos deslindar mistérios meticulosamente trabalhados pelo autor, como observações ao estado do país ou provocações entre personagens.

Amália é a anfitriã de uma reunião de amigos que fazem das artes a sua vida: Ary dos Santos, David Mourão Ferreira e Natália Correia, poetas; Maluda, pintora; Vinicius de Morais, cantor. O resultado? Um rendez-vous perfeitamente enquadrado no seu contexto social, absolutamente contagiante, rico em cultura e com muitas tiradas satíricas que conferem muita tridimensionalidade às personagens.

Portugal é o palco que recebe estes artistas tão profundamente respeitados nas suas áreas de trabalho. Contudo, olhamos para a sua vivência num passado relativamente distante: somos testemunhas desta noite passada em 1968 como viajantes no tempo, o que nos dá a oportunidade de analisar com olhar crítico o contexto social desta época. O país está imerso na ditadura. Decorre a guerra colonial. Marcello Caetano substitui Salazar no governo. A arte pela arte. É neste cenário que Amália recebe os seus amigos num ambiente musical e cultural contagiante. Todas as personagens são retratadas consoante as características que mais se sobressaíram ao longo das suas carreiras. Elogios musicais, auto-retratos e descrições poéticas marcam a história a conferem ritmo e aumentam a envolvência entre as personagens, e entre as personagens e o público / leitor.

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Portugal, este país de brancos costumes. Portugueses, este povo tão resignado quanto crítico, tão confortável quanto aceitador, tão auto comiserador quanto o seu fado exige. Um retrato fiel do que é Portugal e de quem são os portugueses, provando que quatro ou cinco décadas não são o suficiente para mudar por completo a sua postura e a sua forma de vida.