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E ler um livro.
And read a book.

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Um repórter inconveniente (2015), Aurélio Cunha

“Um repórter inconveniente – Bastidores do jornalismo de investigação” é a história real de um jornalista que, para o ser, tal como a sua consciência profissional o exigia, teve de recorrer à clandestinidade dentro do seu próprio jornal, o “Jornal de Notícias”, na altura o de maior tiragem do país. E fê-lo, recusando a condição de escriturário da redacção, para enveredar, à revelia das chefias, pela investigação jornalística, género então pouco ou nada praticado nos jornais portugueses. Para realizar algumas das reportagens, que levaram a Assembleia da República a promulgar novas leis e a alterar outras, o jornalista sentiu-se na necessidade de recorrer a baixas médicas psiquiátricas para poder trabalhar e, assim, concluir as investigações para as quais o jornal não lhe dava condições. Teve também de pagar do seu bolso despesas que fez ao serviço do jornal.

“Um repórter inconveniente” revela os bastidores oculto s de trabalhos jornalísticos de grande impacto público, tais como:

  • Agarrado a um morto, o jornalista entrou na morgue, durante a noite, e, mesmo às escuras, conseguiu encontrar órgãos roubados a cadáveres, que depois eram exportados para multinacionais farmacêuticas, a partir de colheitas clandestinas realizadas no Porto e em Lisboa;
  • Vendeu o seu próprio sangue a médicos que o revenderam a doentes de clínicas privadas, depois de ter passado por sem-abrigo e marginal, o que lhe permitiu revelar ao país que em Portugal estavam a ser feitas transfusões sanguíneas mortais;
  • Infiltrou-se em celas prisionais e, quando na cadeia foi detectado, inventou artimanhas para fazer com que reclusos viessem à rua falar consigo, a fim de que os leitores pudessem ver para lá das grades;
  • Descobriu que, numa agência bancária, mesmo os clientes já falecidos há anos continuavam a “assinar” cheques;
  • Assinou o seu próprio óbito, numa urgência hospitalar, a fim de conseguir observar como os cangalheiros disputavam o seu corpo para lhe fazerem o enterro, o que o levou até ao mundo dos negócios mafiosos que giravam em volta dos funerais;
  • Perseguiu, durante anos, o «roubo legalizado» a assinantes dos Telefones de Lisboa e Porto, que tinham «um ladrão dentro de casa»;
  • Assistiu, durante a noite, no santuário de Fátima, à recolha do dinheiro dado pelos peregrinos e perseguiu o destino das toneladas de ouro oferecidas para pagamento de promessas, ainda que os leitores tivessem sido impedidos de ler a reportagem;
  • Denunciou o desvio de medicamentos destinados a doentes renais e oncológicos e comparticipados pelo Serviço Nacional de Saúde, para o doping de atletas de alta competição, numa investigação involuntariamente despoletada pelo treinador Jorge Jesus;
  • Revelou o segredo de justiça de julgamentos “encenados” no Supremo Tribunal de Justiça e no Tribunal da Relação do Porto, em que os acórdãos já estavam «cozinhados» mesmo antes da respectiva audiência;
  • Ludibriou os censores ao serviço de Salazar, fazendo uma reportagem absolutamente impensável para a época, denunciando que crianças da zona ribeirinha de Gaia iam para a escola primária cheias de fome e embriagadas;
  • Passando, ora por chulo, ora por agente da Judiciária, percorreu a viasacra do aliciamento de jovens raparigas do Grande Porto para a prostituição e, convidado a entrar no negócio, surpreendeu agentes da PSP e da PJ com interesses nesse tráfico;
  • Diagnosticou a existência de uma maternidade do Serviço Nacional de Saúde que se tinha transformado na maior fábrica de deficientes do país porventura mesmo da Europa, especializada no fabrico, em série, de crianças vítimas de paralisia cerebral;
  • Arruinou o negócio da clínica privada ilegal existente no Instituto Português de Oncologia do Porto, na qual quem pagasse era operado de imediato e quem não tivesse dinheiro ia para as intermináveis filas de espera, o que levou a ministra da Saúde a demitir a Administração;
  • Testemunhou a corrupção de médicos, tendo acedido a uma listagem informática de clínicos a quem, mediante a prescrição de determinados medicamentos, eram oferecidas contrapartidas financeiras, desde presentes de todo o tipo a dinheiro vivo;
  • Desceu com o bispo do Porto ao inferno da vida dos moradores da Sé, na primeira visita que um prelado fez àquele bairro histórico da cidade, durante a qual esteve sob a ameaça do perigo de desmoronamento de velhos pardieiros, chafurdou na miséria, foi chicoteado pela infâmia de tão aviltante viver e pôde aperceber-se como aquela gente apodrecia viva;
  • Comprou missas a mulherzinhas que faziam da celebração eucarística o seu ganha-pão, praticando preços variáveis entre 15 e 25 tostões, sendo que encomenda que incluísse por parte da misseira a comunhão do Corpo de Cristo custava mais dinheiro;
  • Inflamou, com um conjunto de reportagens, o abade das Antas que, a partir do altar, liderou a revolta dos seus paroquianos contra a Câmara Municipal do Porto, que na zona pretendia instalar um parque de diversões, fazendo recuar a autarquia no seu propósito;
  • Cavou o filão do ouro falso que alastrou por todo o país, em que peritos da própria Contrastaria da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, por lei os guardiões da sua qualidade, eram suspeitos de legalizar obra ilegal, por marada, e em que, inclusive, a Caixa Geral de Depósitos vendia ouro fugido às malhas da lei;
  • Detectou que radiações ionizantes, as quais podem provocar vários tipos de cancro e lesões genéticas, andavam em roda livre nos principais hospitais e consultórios de radiologia de Lisboa e Porto, ao certificar-se de que instalações e equipamentos radiológicos violavam manifestamente as normas de segurança impostas por lei;
  • Passou por pedófilo ou traficante de droga junto de agentes da PSP e levado para a esquadra, por suspeita de ser o cérebro de um gangue que tinha tomado de assalto um colégio dito de reeducação e dependente do Ministério da Justiça;
  • Comprovou, e o mundo ficou a saber, que falsificações estrangeiras eram de melhor qualidade do que muito do vinho do Porto saído de caves de Gaia, pois o respectivo Instituto estava a certificar com o seu selo de garantia verdadeira zurrapa, aprovando vinhos… reprovados pelos seus provadores.

O livro será como que uma espécie de reportagem sobre as reportagens do autor, onde ele desvenda os caminhos inverosímeis que teve de percorrer para as concretizar.  Dois professores universitários de jornalismo já se pronunciaram sobre os textos de Um repórter inconveniente – Bastidores do jornalismo de investigação” Manuel Pinto, do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho, considera que o trabalho tem “histórias fabulosas, que são o testemunho de uma vida e de uma época”, as quais “merecem ser contadas, ser publicadas e ser lidas”. Na opinião de Ricardo Jorge Pinto, da Universidade Fernando Pessoa, o escrito em apreço “vai ser um livro fantástico, que faz falta para quem quiser compreender o que foi um certo século XX” .