O armazém e outras estórias (2015), Patrícia Madeira

armazem_outras_estorias

Com temas muitos distintos, que vão do amor, à solidão, à velhice, ao sexo, à morte, à amizade, à unreality TV até ao fantástico, “O Armazém e Outras Estórias” revela-nos a ansiedade e a insegurança que temos connosco próprios, que jamais ousaremos contar a alguém, e a certeza que estamos sozinhos mesmo quando rodeados pelos nossos mais queridos. São 18 estórias escritas numa perspectiva individual e intimista, ilustradas por João Raposo.

Apreciação

Embora com algum atraso, chegou a altura de partilhar a minha opinião sobre o tão aclamado livro de contos O armazém e outras estórias, assinado por Patrícia Madeira. Este livro foi-me gentilmente oferecido pela sua editora, tendo a oportunidade de contar com a edição especial de capa rija cuja ilustração me encantou.

Quem prefere romances literários está familiarizado com a sua estrutura (introdução, obstáculos, desfecho, clímax, papéis de cada uma das personagens, entre outros) e com a forma como a narrativa é montada. Independentemente da história e da criatividade do autor, há critérios que devem ser respeitados para que um romance literário se torne cativante. Por seu lado, nos contos a estrutura é mais aberta. Ao contrário do romance, nos contos a trama não tem conflitos secundários e, por ser tão conciso, pode tornar-se um verdadeiro desafio para quem o escreve.

É difícil atribuir valor (perceba-se: entender a verdadeira relevância) em contos, sejam eles quais forem, pelo que um dos principais critérios para o fazermos é o resgate de textos clássicos e de referência dentro do género, de forma a podermos retirar as ilações que pretendermos e conseguirmos dar a devida importância ao que acabamos de ler.

Nos contos de Patrícia Madeira, encontramos essa flexibilidade no que diz respeito aos temas abordados, à voz de narração, à estruturação de ideias e ao tom das histórias. Regra geral, estão presentes os elementos fundamentais de uma história: quem, onde, o quê, como, quando, sendo abordado ocasionalmente o porquê, se a narrativa o justificar. Os assuntos abordados são variados e, de forma geral, ilustram a visão da personagem que narra sobre pequenos acontecimentos do dia-a-dia. Esta análise sobre os pormenores do quotidiano espelha o olhar atento da escritora e o esforço em tornar interessante, dando-lhe um cunho pessoal, daquilo que no dia-a-dia nos passa despercebido.

A fantasia está latente de forma bastante perceptível em alguns dos textos, textos os quais se afastam um pouco do vouyerismo quotidiano. É interessante interpretar os esforços da autora em nos presentear com cenários fantasiosos e oníricos, dando-nos a sensação que estamos dentro de um sonho devido à falta de sentido nos acontecimentos que acompanhamos – isto acontece no primeiro conto do livro, “O armazém” – ou que assistimos a um episódio de twilight zone – em “A porca”.

Os contos são concisos e conseguem alcançar o objectivo pretendido, embora tenha ficado com a sensação de que alguns deles nos cativam de forma insuficiente. Embora n”A porca” a surpresa no desfecho tenha sido enorme, noutros contos senti que a história havia sido retirada de um livro maior, faltando-lhe um pouco de contextualização e de efeito ‘tchan’ nos últimos parágrafos. Por outro lado, num dos contos em particular, “Roy Blue está na cidade”, a narrativa é muito completa, dando a impressão de que, no formato de romance literário, a história poderia viver por si.

Relativamente à forma de escrita, Patrícia Madeira é uma autora que mostra estar à vontade com a expressão literária, embora note ao longo do texto alguma incoerência no que diz respeito ao vocabulário usado: ora coloquial ora eloquente. Em todo o caso, este é um livro que chama a atenção e que pode ser tido como referência na montagem de uma obra variada e criativa.

Se ficou interessado neste livro, conheça mais opiniões aqui:

Ler viver ler O tempo entre os meus livros