Palavras de um sonho (2015), Tiago Pereira

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A realidade que acompanha a nossa existência é construída a partir do conhecimento que retemos das coisas que tocamos, das paisagens que vislumbramos, das pessoas que amamos.
Resignar-nos perante o que consideramos ser real é reconhecer, com plena consciência desse conhecimento, a incapacidade do ser humano para se superar diante de novas inquietudes, aventuras e sentimentos. Todavia, para enorme gáudio dos racionais, a existência humana não se reduz a um rumo, à partida decretado, pelas regras da sociedade.
Estas “Palavras de um Sonho” nascem na irreverente juvenilidade de alguém que se assume como um eterno sonhador, não revelando hesitações de qualquer ordem em afirmar que o seu maior sonho está em conseguir o que outros não conseguiram. A viagem pelo plano do Sonho convida o autor a versar sobre as suas mais díspares memórias, reais e ficcionadas.
Um folhear desta obra embalará o leitor numa constante batalha, nem sempre compreendida, entre a emoção e a razão, o coração e a mente. Esta intensa dualidade é particularmente dissecada à luz do Sonho mais genuíno que a nossa existência pode conhecer – o Amor.
Que a capacidade de Sonhar de quem lê se ouse transpor pelas palavras desta Poesia!

Apreciação

Gostei, gostei, gostei. Embora eu não seja uma pessoa que opte normalmente por poesia, não hesitei em aceitar o presente da Chiado Editora e em devorar em poucas horas este livro que parece saído… de um sonho.

Quando se pensa em poesia, nomeadamente poesia em português, é fácil fazermos a associação imediata à obra ‘Folhas caídas’  de Almeida Garrett, por exemplo. Acontece que, se há algo que caracteriza a poesia é precisamente o facto de ser difícil de caracterizar. O tipo de discurso, a estética e a retórica são tão importantes quanto a originalidade dos temas e a clareza da mensagem, pelo que a paixão do poeta se torna um dos elementos mais essenciais para que a poesia flutue e contagie o leitor. Não farei uma análise aos critérios normalmente analisados num poema, como ao ritmo, concordância, etc. (porque há anos que não o faço e este blog não é suposto ser tão técnico), pelo que deixarei a minha apreciação sobre os conteúdos em si, e não à sua forma.

Tiago Pereira é um jovem poeta que encontrou nas palavras um escape das ciências exactas. Esta paixão do autor pela escrita e pela expressão nota-se claramente em cada um dos seus poemas, cujos temas variam imensamente, o que resulta num pequeno compendium de reflexões sobre os desassossegos das pessoas, as suas dúvidas, perspectivas e medos.

Tal como o hábito não faz o monge, a idade não faz o poeta. Com apenas 25 anos, Tiago Pereira revela uma grande inquietude que marca o início da idade adulta, marcada pelas dúvidas relacionais consigo mesmo e com quem se relaciona. Numa perspectiva alargada, esta selecção de poemas parecem marcar uma fase da sua vida, cuja visão está limitada à sua experiência (que poema não está?) e cuja resolução parece ser precisamente a vivência do dia de amanhã para a acalmia dos seus receios e para a aquisição de uma tranquilidade mais profunda no que diz respeito à sua identidade e à sua (auto) consciência. O resultado? Um livro que guarda a sensibilidade, fragilidade e força de um jovem adulto que procura o seu lugar no mundo, a sua identidade e o seu papel social, em poucas palavras e muitas emoções.

Se ficou interessado neste livro, leia mais opiniões sobre o mesmo aqui:

As leituras do corvo

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