Arrasar um livro? É assim que se faz

Manual de criptografia para escoteiros

Salman Rushdie disse que “O Código da Vinci” era “tão mau que fazia os livros maus parecerem bons”, mas A.M. Dean mostra que pior é sempre possível.

CRÍTICA DE LIVROS – THRILLER

Título: O Escriba
Autor: A. M. Dean
Editora: Clube do Autor
Páginas: 396
Preço: 17,50€

O romance O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco, tornou-se num inesperado êxito à escala planetária no final dos anos 80, mas muitos dos seus leitores não se aperceberam de que o livro era uma sátira às visões conspirativas da História, envolvendo organizações secretas com sinuosas e improváveis ramificações, charadas mirabolantes e enigmas ocultos em venerandos pergaminhos e monumentos históricos, e, em particular, à abundante e delirante produção literária sobre esta temática.

A incapacidade de o leitor comum em identificar o alvo da paródia resultou deste facto: quando O Pêndulo de Foucault foi publicado, os livros sobre conspirações e sociedades secretas — tivessem eles pendor ficcional ou (pretensamente) factual — eram ainda um produto de nicho, consumido quase exclusivamente por maníacos do esoterismo e charadistas.

Consta que, no início deste século, quando um Dan Brown em início de carreira – publicara três livros que tinham tido vendas insignificantes – submeteu o manuscrito de O Código Da Vinci a um editor, este o rejeitou alegando que “estava muito mal escrito”. Era (e é) verdade, mas mesmo um editor mais preocupado com o lucro do que com o refinamento da prosa teria bons motivos para o rejeitar: os livros sobre estes assuntos tinham um número limitado de apreciadores e O Código Da Vinci nada acrescentava ao género, limitando-se a remastigar as fórmulas e tramas exploradas há décadas pelos thrillers esotéricos.

Mas houve um editor que, por qualquer razão, decidiu arriscar: o romance foi publicado em 2003 e acabou por vender 80 milhões de exemplares em 40 línguas. Este sucesso avassalador não se deveu à sua qualidade literária nem à originalidade da intriga, apenas à fortuna de ter saltado do nicho dos coca-bichinhos rosacrucianos e dos carolas dos segredos templários para o público que compra livros nos supermercados e aeroportos.

O Código Da Vinci viria a ser alvo de processos por plágio de The Da Vinci Legacy (1983) e Daughter of God (2000), de Lewis Perdue, e de Holy Blood, Holy Grail (1982), de Baigent, Leigh & Lincoln, mas muitos mais autores da mesma estirpe poderiam tê-lo feito, já que Brown se limita a repetir os lugares comuns da literatura esotérico-conspirativa, que Eco tinha parodiado exaustivamente em O Pêndulo de Foucault.

Assim que se percebeu que os thrillers esotérico-conspirativos eram, agora, apetecíveis também para o grande público, logo uma horda de garimpeiros acorreu a explorar o filão e o émulo Dan Brown tornou-se ele mesmo em objecto de emulação. Em Portugal, quem tem tido mais sucesso nesse empreendimento tem sido José Rodrigues dos Santos (“Escritor de confiança 2014 votado pelos leitores das Selecções do Reader’s Digest” proclama um selo sobre a foto do autor no seu website), com a série iniciada com O Codex 632 (2005), que tem por personagem central o criptanalista Tomás de Noronha, a resposta lusa ao simbologista Robert Langdon (é tão arguto e erudito como o americano e deixa-o a milhas em desempenho sexual), e que já vai em sete títulos, até à data.

Brown e Rodrigues dos Santos têm muito em comum para lá da temática, do herói criptógrafo, das fórmulas narrativas primárias e dos clichés estafadíssimos: julgam-se investidos de uma missão pedagógica e usam constantemente o artifício de colocar as personagens a ministrar umas às outras maçudas palestras sobre o Priorado de Sião, fundamentalismo islâmico, exegese bíblica, física nuclear ou a dinastia merovíngia. Se Brown ainda tem, apesar da natureza rudimentar da prosa e da pobreza das ideias, alguma preocupação em manter a acção sob tensão, José Rodrigues dos Santos deixa-se levar pelo fervor pedagógico, pelo que há prelecções que se estendem, sem interrupção, por dezenas de páginas – thrill é o que mais falta nos seus thrillers.

Há quem aprecie estas sessões de história-para-totós, mas também há gente que achará as obras de Brown e Rodrigues dos Santos sobrecarregadas de erudição, obcecadas com a descrição minuciosa de monumentos e artefactos vetustos e convocando um desnorteante rol de nomes de figuras e códices, e é a eles que A.M. Dean vem acudir com a série de que O Escriba é o segundo volume – o primeiro, O Bibliotecário, foi publicado em 16 países, onde, diz-se, “foi muito bem recebido pela crítica e pelo público”.

O website do autor apresenta-o como “uma sumidade em culturas antigas e história das religiões, cujos conhecimentos sobre a Antiguidade lhe têm valido cargos nas mais prestigiadas universidades do mundo” (mas não lhe granjearam o selo “Escritor de confiança”), embora nada disso transpareça no livro, que não revela mais conhecimentos de “culturas antigas e história das religiões” do que os que qualquer curioso pode obter numa consulta rápida da Wikipédia.

As prelecções estão reduzidas ao mínimo e, embora as personagens andem num corrupio a procurar mapas e mensagens secretas em pergaminhos provectos, visitar museus emblemáticos e decifrar charadas e o autor faça questão de assegurar (como fazem Brown e Rodrigues dos Santos) que o livro se baseia “em descobertas e factos históricos genuínos”, a componente histórica é minimal. Um dos poucos momentos pedagógicos ocorre quando a heroína, Emily Wess, especialista em documentos antigos, explica ao marido, também especialista em documentos antigos, o que é um palimpsesto – é como se um ginecologista sentisse necessidade de explicar a um colega de profissão o que é a menstruação.

Pueril é também a intriga, com uma seita gnóstica que busca umas revelações místicas nos papiros de Nag Hammadi (não há thriller esotérico-conspiracionista sem mensagens escritas a sumo de limão em papéis velhos) e planeia um atentado supostamente terrível, mas que a inépcia do autor converte numa palhaçada inverosímil e anti-climáctica. A narrativa, que se pretende “trepidante”, é aviada em capítulos curtíssimos (raramente ultrapassam as duas páginas), para não exigir demasiado dos neurónios do leitor, e, de qualquer modo, o autor recapitula amiúde elementos básicos da acção, não vá o leitor ter perdido o fio ao enredo.

A ingenuidade de toda a empresa fica bem patente quando a heroína, confrontando-se com um arquivilão lunático e implacável que ela sabe que já matou ou tentou matar ou mandou matar várias pessoas (incluindo ela própria) e está apostado em aniquilar o mundo, lhe pergunta “Não tem o menor sentido de responsabilidade, daquilo que é certo ou errado?” – o tipo de repreensão que se dispensa a um rapazinho apanhado a roubar a merenda do colega no recreio. Quem leia este trecho desinserido de contexto até poderia pensar que se trataria de uma paródia, mas sentido de humor é algo alheio a este livro – A.M. Dean está mesmo convencido de que está a urdir um thriller palpitante.

Apesar de O Escriba recorrer maciçamente aos clichés do género esotérico-conspirativo, é improvável que venha a ser acusado de plágio pelos autores da abundante literatura especulativa sobre evangelhos gnósticos e os “ensinamentos secretos de Cristo” – é que O Escriba está mais longe deles do que da série O Clube das Chaves.

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Crítica publicada por José Carlos Fernandes no Observador a 28.05.2015