Psicanálise dos contos de fadas (1976), Bruno Bettelheim

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Em ‘Psicanálise dos contos de fadas’, Bruno Bettelheim faz uma radiografia das mais famosas histórias para crianças, arrancando-lhes seu verdadeiro significado. O autor mostra as razões, as motivações psicológicas, os significados emocionais, a função de divertimento, a linguagem simbólica do inconsciente que estão subjacentes nos contos infantis.

Apreciação

Bruno Bettelheim era psicólogo infantil e continua a ser reconhecido pelo trabalho relacionado com a psicanálise, Freud e o acompanhamento de crianças com perturbações. O seu livro ‘Psicanálise dos contos de fadas’ foi lançado em 1976 e, desde então, tem constado nas mesas-de-cabeceira de pais, terapeutas, educadores, psicanalistas e outros tantos com interesse no desenvolvimento das crianças. Como é que é possível que, quase 40 anos depois, esta obra continue a ser reconhecida internacionalmente e que seja respeitada ao ponto de gerações de famílias conhecerem e aplicarem a sua informação?

Comecemos devagarinho: resumidamente, a psicanálise é o conjunto de teorias e terapias psicológicas, bem como de técnicas associadas, criada por Sigmund Freud e que, ao longo dos anos, tem sido continuamente estudada e revista de acordo com várias perspectivas e correntes. Recorrendo à psicanálise e ao estudo do que determina a personalidade e comportamentos de uma pessoa, Bruno Bettelheim afunila as suas técnicas e práticas e foca-se na importância dos contos de fadas no crescimento das crianças. Desta forma, num único livro, o autor consegue espelhar a importância que estas histórias têm no desenvolvimento das pessoas na infância e na sua saúde mental.

Porquê os contos de fadas?

Porque estas histórias não deixam nada ao acaso. Eu, que sou ávida leitora e consumidora de filmes de série B, tenho procurado constantemente obras que não se restrinjam à narração de uma história. Curiosamente, descobri que os contos de fadas são muito mais do que simples histórias com final feliz. São significados escondidos que nos enriquecem (isto em termos de Comunicação é fabuloso!).

Para nos mostrar a importância dos contos de fadas nas várias fases da infância, e respectivas problemáticas associadas, Bettelheim é muito pragmático: entre todos aqueles que escreveram ou adaptaram contos de fadas, são os irmãos Grimm que melhor constroem os contos para que os jovens leitores encontrem e resolvam os seus conflitos interiores. Os dois irmãos, linguistas e escritores, editaram dezenas de histórias cuja estrutura foi calculadamente criada para enriquecer a narrativa e para permitir a identificação por partes dos pequenos leitores.

Vejamos: as crianças têm, em simultâneo, uma visão muito ingénua (pouco experiente) do mundo e formas muito simples de encarar a realidade. Os bons são bons e os maus são maus. Os bons precisam de ser recompensados e o maus de ser castigados. Não é à toa que uma criança não se aflige com a madrasta de Branca de Neve que é castigada até à morte:

No momento em que entrou no salão, reconheceu Branca de Neve e ficou tão apavorada que nem conseguiu mexer-se. Mas já tinham mandado calçar-lhe dois sapatinhos de ferro na brasa. Alguém os tirou de lá com umas tenazes e os pôs diante dela, a qual foi obrigada a calçar os sapatinhos em brasa e dançar até cair morta.

Afinal, que estrutura possuem os contos de fadas?

De acordo com Bettelheim, para ser eficaz, um conto de fadas deve ser composto por fantasia, recuperação, fuga e consolação e recuperação. Se um conto de fadas responde a estes critérios, a criança deverá identificar claramente um problema, identificar-se com a personagem principal, projectar a sua vida (familiar, por exemplo) na história ao detectar elementos em comum, encontrar uma solução para o seu problema e sentir-se realizada, afastando a angústia.

O que esta obra nos diz é que uma criança que se sinta abandonada pelos pais ou substituída pelos irmãos ou um jovem adolescente que tenha dúvidas sobre a sua vida íntima podem, via contos de fadas, encontrar uma forma simples, eficaz e saudável de resolver as suas dúvidas e angústias. Como? Na prática, é simples. O autor aconselha os pais a aproximarem-se dos seus filhos e a criarem rotinas de leitura antes de irem dormir, por exemplo. Escolhendo uma história à qual a criança responda positivamente e de forma entusiasmada, o pai ou mãe estão a envolver-se na vida privada da criança de forma subtil e a ajudá-la a tornar-se um adulto emocional e mentalmente mais saudável. Se há obstáculos a ultrapassar relacionados com o complexo de Édipo, por exemplo, ou sobre a mudança no corpo das raparigas, algumas das histórias podem ser seleccionadas para permitir que a criança se resolva a si própria.

Todos temos exemplos para dar sobre pessoas com que lidamos ou mesmo sobre nós próprios: quantas vezes não se vê um filme até à exaustão? Quantas vezes não repetimos o mesmo livro? Por vezes, nem é possível explicar tamanho interesse em dada história mas, à semelhança do que acontece nos contos de fadas, muitas vezes estamos a procurar e encontrar significados inconscientemente e a resolver algumas questões que, maioritariamente, nem sabemos que existem. É por este motivo que não só Bettelheim defende os contos de Grimm, como explica ao pormenor a estrutura e os elementos constantes nestas histórias. O Eu, os nossos impulsos mais primitivos e a pressão social (id, ego e superego) são, digamos, os elementos que compõem a nossa personalidade e definem os nossos comportamentos. Analisando criteriosamente cada uma das situações em que as personagens dos contos de fadas estão envolvidos, e enquadrando-os ainda num contexto social e familiar em particular, o autor explica porque as pessoas agem como agem e porque é que estes contos os podem ajudar a conhecer-se melhor a si próprio.

O livro 

De forma geral, percebemos claramente o quão acerrimamente o autor defende os irmãos Grimm e o quão desgosta de Perrault, outro autor que desenvolveu contos ao longo da sua carreira. Na verdade, muitos dos contos deste último acabam por ser adaptações fracas dos irmãos Grimm e que não respondem à estrutura necessária que confere um resultado terapêutico à leitura. Enquanto na India há prisioneiros e doentes mentais a quem são dados contos de fadas como forma de terapia, numa perspectiva ocidental os contos de Perrault são consideradas adaptações fracas pelos psicanalistas– em semelhança às da Walt Disney, que não só ignoram alguns dos elementos mais importantes da narrativa, como se focam em mensagens superficiais sem qualquer tipo de ‘conteúdo útil’.

O livro está organizado em duas partes: na primeira, Bettelheim define os conceitos inerentes aos contos de fadas, aos efeitos terapêuticos nas crianças e aos vários problemas com que as crianças e jovens se deparam, consciente ou inconscientemente; na segunda, é feita a análise a alguns dos contos de fadas mais conhecidos (sobretudo devido às várias adaptações existentes), detalhando cada um dos aspectos presentes nas respectivas narrativas. De forma geral, uma das críticas feitas a Bettelheim é precisamente a limitação nas interpretações que as histórias podem ter: na verdade, há tantas interpretações como há crianças.

A título exemplificativo, deixo-vos um excerto retirado do livro – uma brevíssima análise feita à alguns elementos da Branca de Neve:

Aqui a história propõe os problemas a resolver: inocência sexual, brancura, contrastada com o desejo sexual, simbolizado pelo sangue vermelho. Os contos de fadas preparam a criança para aceitar um acontecimento que seria perturbador: o sangramento sexual, como na menstruação, e posteriormente na relação sexual quando o hímen é rompido. Ouvindo as primeiras frases de Branca de Neve, a criança aprende que uma quantidade pequena de sangue — três gotas (sendo o número três o mais associado no inconsciente com o sexo) — é uma pré-condição para a concepção, porque a criança só nasce depois do sangramento. Aqui, então, o sangramento (sexual) está intimamente ligado ao acontecimento ‘feliz’; sem explicações detalhadas a criança aprende que nenhuma criança — nem mesmo ela — poderia nascer sem sangramento.

Se estão interessados em ler, agora com outros olhos, os contos de fadas dos irmãos Grimm, podem encontrar dezenas deles em português do Brasil aqui mesmo. A edição da ’Psicanálise dos contos de fadas’ que li é recente: é de 2011 e assinada pela Bertrand.