A trégua (1963), Primo Levi

tregua

Primo Levi (Turim, 1919-87) inscreveu seu nome entre os maiores escritores do século XX, a partir da experiência de prisioneiro e sobrevivente do campo de extermínio de Auschwitz. Sua prosa literária tem a força expressiva das narrativas em que a voz da testemunha alia-se ao trabalho da memória e da recriação da vida nos limites máximos da dor e da destruição. A trégua narra a longa e incrível viagem de volta para casa depois da libertação de Auschwitz e do fim da guerra. Numa Europa semi-destruída, o autor e vários companheiros de estrada viajam sem destino pelo Leste até a URSS, entre as ruínas da maior de todas as guerras e o absurdo da burocracia dos vencedores.

Apreciação

‘A trégua’, de Primo Levi, é muito mais do que a trégua bélica no rescaldo da segunda guerra mundial. Depois de partilhar as suas vivências aterradoras enquanto prisioneiro de Auschwitz (Se isto é um homem, 1947), Levi escreve as suas memórias do que foi o regresso a casa depois da libertação do campo pelos russos e da sua trégua que lhe permitiu sobreviver a uma expedição pelo leste da Europa para reencontrar o seu lar.

Este sobrevivente consegue, de forma directa, descrever as dificuldades por que passou a vários níveis: não só a fome e a doença que o acompanharam no seu percurso, mas a solidão, a dificuldade no relacionamento social e cultural, as dúvidas sobre decisões políticas e sobre o estado da Europa, a incógnita dos seus passos que foram sempre tomados por terceiros, o silêncio e a servitude face a quem orientou estas pessoas na sua viagem até casa.

Primo Levi não floreia nem tem tenções de envolver mais do que é estritamente necessário ao narrar as suas histórias. Ao contrário de outros sobreviventes do holocausto que conferiram um certo carácter de envolvência, com recurso a enormes figuras de estilo e à análise emocional de tudo aquilo por que passaram, Levi limita-se a narrar de forma racional e pormenorizada a sua viagem entre a Polónia e Itália depois de terminada a guerra. Podendo ser encarada como monótona ou fastidiosa, esta forma de partilhar as suas experiências não deixa de ser linear e constante: o sobrevivente fez, aconteceu, passou por, conheceu, decidiu, hesitou, acompanhou, conseguiu, sofreu. E deixa para trás o momento extraordinário que foi o reencontro com os seus amigos e família, vivos e de saúde, que esperavam por si. Não sabemos pormenores sobre este momento, nada revela sobre a felicidade que viveu, deixando apenas uma breve referência sobre a chegada a Turim, em Itália, onde estava o seu lar.

Será possível ‘analisar’ uma obra deste género, carregada de História e de dor? De realidade e de medo? Porque não se tenta analisar antes o contexto em que estas páginas foram escritas?

Passaram quase 20 anos entre a publicação de ‘Se isto é um homem’ e ‘A trégua’. Que motivo levaria um homem a carregar esta dor consigo, a não ser para tentar libertar-se dela? Insiste na fome, na dor, nos cheiros, nos pés descalços, na doença, na magreza, na perda, na solidão, na incógnita, no vazio, na servidão, na mudez, esquecendo as lágrimas que provavelmente o assolaram quando chegou ao seu país, à sua cidade, a sua casa, à sua família, ao seus.

Estarão estas confissões relacionadas com a suspeita de suicídio de Levi em 1987? Está registado que este homem sofreu de uma enorme depressão aquando do lançamento deste segundo livro e que outros ensaios e peças foram assinados por si até aos anos ’80. A sua morte, tenha sido suicídio ou relacionada com a medicação que tomava para a tratar a sua depressão provocada pelo trauma da guerra, foi lamentável e prova aquilo que não se quer provar: Primo Levi morreu às mãos dos campos de concentração, embora não dentro deles.