Quem disser o contrário é porque tem razão (2014), Mário de Carvalho

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Ser escritor. O texto ficcional. Dilemas, enigmas e perplexidades do ofício. No vale das contrariedades. Nada do que parece é. O «assertivismo» é um charlatanismo. A valsa dança-se aos pares: escrita e leitura, autor e leitor, personagem e ação, causalidade e verosimilhança, contar e mostrar, o dentro e o fora, a superfície e o fundo. O bico-de-obra do primeiro livro. Por onde começar? Com que começar? Com quem começar? A manutenção do interesse. Não há regra sem senão; não há bela sem razão. Ou o oposto. Riscos, cautelas e relutâncias.

Apreciação

Quem disser o contrário é porque tem razão. É neste pressuposto que Mário de Carvalho assenta este guia que ajudará os autores amadores a colocar-se neste espaço tão completo que é a literatura. Estas letras sem tretas não assumem que os conselhos dados são uma verdade absoluta, nem tão pouco afirmam o contrário, pelo que qualquer pessoa que tenha o interesse se seguir por este livro ficará com uma certeza: não há certezas na literatura. Isto não é confuso – pelo contrário, é reconfortante e entusiasmante.

Mário de Carvalho orienta-se pela sua experiência e pelas dezenas ou centenas de autores que refere do longo do livro, com uma linguagem coloquial e um tom muito descontraído. O seu percurso no mercado literário é muito rico, o que confere ao autor uma postura e uma posição a que a poucos cabe a honra: a de aconselhar e de murmurar ao ouvido dos escritores amadores algumas observações que tornarão os seus textos mais ricos e interessantes para quem os ler.

Uma das mais recorrentes notas que Mário de Carvalho faz é a da importância da estrutura do romance literário, nomeadamente quando nos referimos à tão aclamada e reconhecida forma que é composta por princípio, meio e fim; personagens; papéis; e definição do caminho para a criação do enredo. Este tema, quiçá um tanto polémico e abordado antes no Folhas de Papel, remete-nos para a Grécia Antiga e para Aristóteles que analisou e descreveu a estrutura narrativa como o esqueleto de obras literárias, como teatro ou poesia. O clímax, o anticlímax, a peripécia e a reviravolta são alguns dos elementos incluídos nos estudos deste pensador que, mais de 2.000 anos mais tarde, se mantêm actuais e constituem os principais elementos das obras de ficção e não-ficção clássica e contemporânea (não só em literatura, mas também noutras formas de arte, como no cinema).

Se se assumir como princípio a estrutura aristotélica, está em criação um livro cuja forma será facilmente reconhecida pelo público. Mas, se o autor optar por se afastar desta construção, estará a aproximar-se de outras já existentes e que já romperam com a ‘normalidade’. Qualquer um dos formatos é correcto e aceitável. O importante é a expressão.

E aqui coloca-se a questão: como evitar repetir ou fugir a tudo o que já foi feito? Não há uma resposta que possa ser dada, a não ser a que remete para o estilo do autor e para aquilo que entende ser a sua própria forma de literatura. É precisamente isso que Mário de Carvalho pretende nesta obra que aborda os principais aspectos que estão relacionados com o acto que é escrever: que personagens? Onde? Como? Quando? Onde está e quem é o narrador? Como lidar com anacronismos? Existe realidade nos diálogos? Como enquadramos analepses? Os pormenores são relevantes? As descrições poderão ser alargadas ou resumidas? Os lugares-comuns aproximam-nos ou não dos leitores?

Com referência a inúmeras obras, autores e excertos, Mário de Carvalho coloca-se ao nosso lado e diz-nos: “Que escrever? Escreva. Faça o que entender. Lembre-se que há cuidados a ter. Não se esqueça que a literatura tem regras e não tem, em simultâneo. Mas olhe: quem disser o contrário, é porque tem razão!”.

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