A náusea (1938), Jean-Paul Sartre

nausea

A Náusea foi o primeiro romance de Sartre e foi saudado aquando do seu aparecimento como a revelação dum escritor de grande talento. Através do diário diurno íntimo do protagonista, Antoine Roquentin, Sartre retrata com um realismo digno de Maupassant a vida e os habitantes duma cidade da província, explorando a fundo o absurdo da condição humana, tema que mais tarde o tornaria um autor incontornável.

Apreciação

existencialismo | s. m.

e·xis·ten·ci·a·lis·mo

substantivo masculino

Doutrina filosófica segundo a qual o homem, que primeiramente teve uma existência quase metafísica, se criou e se escolheu a si próprio actuando.

in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013

Quem melhor do que Jean-Paul Sartre para criar uma personagem que questiona sobre a existência e sobre a sua ilogicidade numa obra de profundo niilismo e análise à condição humana, sob a forma de um romance literário?

Antoine Roquentin, um homem culto e experiente, guia-nos na sua descomplicada vida em Bouville e na sua tentativa de escrever a biografia do marquês de Rollebon. É neste curto percurso de Roquentin que conhecemos a solidão profunda em que vive e o vazio dos seus dias, preenchidos por visitas à biblioteca para escrever o seu livro e por curtos mas intensos encontros com seus conhecidos, com quem trava profundas discussões sobre algumas das questões mais marcantes do existencialismo. É tanto na sua solidão como nos momentos em que está acompanhado que mergulhamos numa reflexão intelectual intensa sobre a condição existencial.

Da primeira à última página, acompanhamos as deambulações intelectuais de Roquentin: o que é a existência (que, por ser gratuita, exclui qualquer tipo de aceitação por parte de quem existe); como se encara a existência; e como se existe. Desengane-se quem pense que as reflexões estão cheias de frases longas e incompreensíveis, de raciocínios complicados ou de termos aborrecidos. A filosofia estende-se ao fundo desta obra que se caracteriza por pensamentos e diálogos simples e autênticos, cheios de substância e de ideias que certamente deixarão o leitor a reflectir sobre esta corrente filosófica.

Para cativar a atenção do leitor e para melhor expor as ideias abordadas, Sartre encontra uma série de correntes e conceitos que ajudarão a tornar mais inteligível e a facilitar a percepção de aquilo que pretende explicar. A dada altura, Roquentin encontra-se com uma personagem com que lida ao longo da história, o AutoDidacta, e mergulha numa discussão sobre o que é o humanismo. É com base nesta orientação filosófica, contraditória ao existencialismo, que se consegue entrar ainda melhor na mente do nosso protagonista e ver o mundo com os seus olhos. Reduzindo o humanismo a uma filosofia que se baseia nas capacidades humanas, Roquentin em simultâneo expõe o existencialismo como uma filosofia niilista e antropófoba. É também com um encontro com a sua amiga Anny, com quem tem um passado em comum e com a qual não consegue antever um futuro, que Roquentin se apercebe o que é a existência definitiva e a (des)importância das existências entre as pessoas. Acerca da música, por exemplo, Roquentin tem também uma visão muito redutora: no existencialismo de Sartre, a música é apenas um escape para a existência penosa de cada um. Experienciando isso, o protagonista afirma que há uma relação de causa-efeito quando as pessoas ouvem música, visto conseguirem experienciar uma série de emoções que a sua existência, só por si, não consegue.

A consciência do próprio está profundamente ligada ao pensamento de Descartes: “Penso, logo existo” porque, sem pensamento, não há existência. Mas, se a alienação é um pensamento per se, então não é possível fugir-se à existência. E é precisamente aqui que identificamos a “náusea” que Roquentin sente ao longo da sua história: a consciência da sua falta de liberdade.

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