Todas as histórias são iguais

Uma nave aterra num planeta e um jovem, desesperado para se destacar, tem como função aproximar-se dos habitantes e compilar os seus segredos. Encantado com a sua forma de vida, o jovem apaixona-se por uma rapariga local e começa a trair os seus chefes. Descobrindo que o homem se converteu, os seus chefes decidem destruí-lo e à população nativa de uma vez por todas. Avatar ou Pocahontas?

Uma ameaça paira sobre uma comunidade. Um homem decide matar a besta e restaurar a felicidade naquele reino. Tubarão ou Beowulf? A Coisa, Parque Jurássico ou Godzilla? O Exorcista, Atracção Fatal ou Psycho?

Um herói encontra-se num novo local cheio de aventuras. À medida que descobre a espectacularidade e glamour deste cenário, a realidade começa a torna-se mais sinistra. Alice no País das Maravilhas, o Feiticeiro de Oz ou As Viagens de Gulliver?

Quando uma comunidade se encontra em perigo e percebe que a solução passa por encontrar e recuperar um artefacto longínquo, um grupo de pessoas decide iniciar uma aventura cheia de perigos rumo ao desconhecido. Os Salteadores da Arca Perdida ou Senhor dos Anéis?

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São estruturas de histórias que se multiplicam em inúmeras formas. O herói, a salvação, o perigo, a aventura. Mas esta estrutura não se limita à narrativa literária ou cinematográfica. Lidando com crianças, que não têm ainda a capacidade de analisar de forma mais abstracta este tipo de estrutura, é possível perceber que este tipo de construção está presente na forma como o pensamento é construído. Vejamos o seguinte texto, escrito por uma criança de nove anos:

Uma família está desejosa de ir de férias. A mãe sacrificou as férias para pagar a renda. As crianças encontraram um mapa no jardim que os leva a um tesouro escondido no mato e decidem ir procurá-lo. Depois de muitas aventuras e se serem perseguidos, finalmente encontram-no e têm umas férias ainda melhores.

Porque é que uma criança inconscientemente recorreria a uma forma cuja origem remonta há séculos atrás? Porque é que, escrevendo de forma tão espontânea, esta criança demonstra um conhecimento sobre a estrutura narrativa que ilustra as usadas desde há gerações? Porque é que as histórias são, de forma geral, tão fidedignas a esta estrutura? Pode ter a ver com o facto de as gerações se seguirem pelo que foi feito antes, aliado às convenções estabelecidas no meio onde o escritor está inserido.

A arte de contar histórias

A arte de contar histórias tem uma forma. Domina a forma como todas as histórias são escritas e podem ser detectadas não só até ao Renascimento, mas à altura em que se começaram a fazer registos. Trata-se de uma estrutura que absorvemos avidamente e que se tornou um arquétipo universal.

Esta procura pela estrutura narrativa universal não é recente. Desde a Escola de Praga aos Formalistas Russos, muitos se dedicaram à tarefa de perceber como as histórias funcionam. Embora existam muitos livros sobre a escrita de guiões, não há um consenso sobre os sistemas abordados no que refere à arte de saber escrever histórias. Assim, todos estes autores afirmam ter razão. A única questão que falta estes livros abordarem é “Porquê?”

Nessas páginas poderão encontrar-se informações valiosas e análises aprofundadas, e algumas dicas que poderão ajudar a tornar as histórias mais intensas e difíceis de largar (consta que, nos best sellers, deverá haver um incidente na página 12 para prender o leitor. Ninguém, contudo, explica porquê).

De forma geral, há duas questões fundamentais que devem ser colocadas: quais são os traços desta estrutura e porque é que ocorreram. A narrativa em três actos, por exemplo, não foi uma invenção da história moderna mas uma articulação de algo muito mais primitivo: foi o resultado à atenção da audiência. Esta narrativa tripartida, de introdução, desenvolvimento e desfecho, remonta há séculos atrás e aproxima-se de Aristóteles.

estrutura_romanceTodas as histórias acabam por ser criadas dentro do mesmo modelo, visto que os escritores não têm muita escolha na estrutura que utilizam: a lógica leva-os a fazer aquilo que tem sido feito, por ter sucesso e ser aceite.

Será, portanto, este o segredo na arte de contar histórias? A compulsão de organizar, explicar, catalogar é também responsável por se marcarem tendências. Em todo o caso, pode evitar-se esta compulsão, negando a natureza multifacetada da narrativa e aproximando-se da Casaubon.

Mas há regras que devem ser seguidas: as regras são as do drama, definidas por Aristóteles. Tal como cada linguagem tem gramática, a gramática tem a sua estrutura. Trata-se de construção – uma expressão rica e intrincada da mente humana.

Tradução e adaptação do texto “All Stories Are the Same”, escrito por John Yorke, por sua vez adaptado do seu livro “Into the Woods: A Five-Act Journey Into Story.”