A escolha de Sofia (1979), William Styron

escolha_sofia

Com três milhões de exemplares vendidos, 47 semanas nas listas de best-sellers do Times e vencedor do National Book Award de 1980, A Escolha de Sofia mostra, em sua patética grandeza, com perfeito domínio do tempo na narrativa e um texto denso e envolvente, o drama de uma mulher corroída pela culpa, que nenhuma felicidade consegue desviar do puro e simples aniquilamento, e para quem a única possibilidade de vida é uma ligação alucinante e destrutiva. Para além das cercas eletrificadas e das câmaras de gás, o campo de concentração de Auschwitz continuava a fazer vítimas. A escolha de Sofia com roteiro, produção e direção de Alan J. Pakula, teve versão cinematográfica de grande êxito: eleito melhor filme de 1983 pela Associação de Críticos de Nova York e Los Angeles e ganhador do Globo de Ouro da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, deu à atriz Meryl Streep o segundo Oscar de sua carreira.

Apreciação

A vida é feita de escolhas. A cada segundo, tomamos imperceptíveis decisões que definem o nosso dia, embora apenas raramente tenhamos consciência de que as tomamos e, mais excepcionalmente ainda, surjam momentos em nos é exigida uma atenção irrepreensível para tomarmos uma decisão que mudará tudo.

A Escolha de Sofia é um livro que se debruça precisamente sobre o poder de decisão e o impacto que grandes e pequenas escolhas têm sobre quem a toma e quem o rodeia. Do início ao fim, William Styron orienta-nos de uma forma bastante subtil – mas inegável – numa história que tem de tudo para correr bem e para correr mal.

Começando por partes: não gostei da forma como o livro está estruturado. Sequências dentro de sequências e saltos constantes entre o passado e o presente (mesmo que um passado muito actual) acabam por, na minha opinião, tornar a leitura cansativa pois, ao final de alguns capítulos, é preciso fazer o exercício mental de tentar enquadrar passagens no tempo. Por outro lado, se há algo que confere muito interesse ao livro, é a forma como as personagens estão construídas. Em A Escolha de Sofia, é Stingo, um rapaz de 22 anos norte-americano, que nos conta a forma como conheceu Sofia e o seu namorado Nathan e que narra continuamente os desenvolvimentos desta relação. Se Sofia é uma personagem tridimensional, complexa e completa, e Nathan igualmente rico em qualidades e defeitos, por seu lado o nosso narrador é uma personagem plana e relativamente passiva que contrasta com a riqueza de atributos das outras duas.

Stingo, entrando na idade adulta, é um jovem que procura loucamente explorar a sua sexualidade e em descobrir os meandros desse território que está praticamente ao seu alcance e, ainda assim, tão longe. Sofia é uma mulher polaca que procura nos Estados Unidos uma segunda oportunidade, depois de sobreviver ao horror vivido na Europa na segunda guerra mundial. Nathan é homem instável, tão louco quanto admirável, responsável por muitas das altercações que vamos conhecendo ao longo da história.

É este trio que acompanhamos em A Escolha de Sofia e é precisamente este trio que escolhe a forma como encara a vida, nas mais variadas formas: a nível profissional – quando há decisões tomadas relativamente ao emprego e ao futuro de cada um, nomeadamente na forma como as personagens escolhem mudar ou manter o seu emprego ou, mesmo, partilhar as suas funções com os seus amigos; a nível amoroso – sempre que há momentos em que cada uma das personagens tem de optar pelo amor ou pelo amor próprio, situações que se focam sobretudo na forma como Sofia encara Nathan e como Stingo encara a sua privada; e a nível pessoal – nos momentos decisivos em que uma vida muda de forma irreparável e com consequências permanentes. Todos estes momentos são essenciais para esta história ganhar forma e substância.

À medida que vamos conhecendo o presente, em 1947, destas três pessoas, vamos também conhecendo o passado de Sofia. É através de diálogos vários, quando Sofia conta a Stingo, que conhecemos o seu passado terrível e o motivo de ser uma pessoa tão instável e com um sentimento de culpa tão grande no seu dia-a-dia. Sendo polaca, assistiu a momentos marcantes no seu país durante a ocupação nazi e, mais tarde, acabou por ser levada para o campo de concentração de Auschwitz. Muita da informação partilhada sobre o passado de Sofia é justamente sobre a sua passagem por lá e por todas as tentativas e decisões que tomou que permitiram sobreviver.

E é precisamente aí que o livro me deixa com um sentimento dúbio: se, por um lado, as divagações de Stingo sobre a sua família ou (inexistente) vida sexual são aborrecidas e os saltos no tempo e no espaço são enfadonhas, por outro lado as passagens sobre a experiência de Sofia nos campos são ricas e intensas, sobretudo porque nos apresentam uma perspectiva pouco divulgada sobre a vivência de um não-judeu em Auschwitz. Na minha opinião, não é um livro extraordinário, mas vale a pena ler e deixar-se contagiar com as escolhas terríveis com que nos vamos deparando capítulo a capítulo.

Sobre A Escolha de Sofia:

O autor com este livro recebeu o National Book Award de ficção em 1980 e inspirou um filme com o mesmo nome, protagonizado por Meryl Streep em 1982. Querem conhecer o trailer?

Se ficaram interessados neste livro, poderão ler uma entrevista com o autor publicada na Geração Editorial e outra opinião no blog Livros Pra Ler e Reler.