Desabafo de um ex-leitor

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Socorro, não consigo ler mais livros.

Não consigo mais ler livros.
Não que eu não queira. Simplesmente não consigo.
Sou um leitor, desde que me entendo por gente.

Sempre li muito. E continuo lendo.

Mas de uns anos para cá, me alimentar compulsivamente de internet tem causado um efeito colateral que ainda não consigo explicar muito bem.

Só sei que agora, toda vez que pego um livro nas mãos, não consigo ler, canso rápido. Se o texto não “embala” logo, preciso de muito esforço para continuar com a leitura.

E não é só com o livro de papel. A mesma coisa acontece com o livro digital. Não tem nada a ver com o tipo de apoio. Tem a ver com a extensão do texto.

Essa situção tem me deixado agustiado. Será que desaprendi a ler? Será que fiquei preguiçoso? Será que agora só consigo ler coisas curtinhas e, de preferência, com uns links?

Acho que não. Na verdade, nunca li tanto como agora. Passo o dia inteiro lendo. Mas leio cacos, fragmentos.

Sim, o efeito é conhecido e foi previsto anos atrás.

Continue a ler este desabafo no Update Or Die para conhecer o drama que ex-leitor sofre diariamente por não se sentir capaz de ler um livro em papel.

E assim se abre mais uma conversa sobre o impacto da tecnologia na vida das pessoas: até que ponto é que a mudança de hábitos é saudável? É possível encontrar um equilíbrio entre os ‘processos mecânicos’ e os ‘processos digitais’? Será que a tecnologia, neste caso, substitui integralmente hábitos de leitura de livros em papel?

Há quem diga que os livros em papel estão nas horas da morte, por serem uma invenção da Idade Média e que, por isso mesmo, em plena Era da Informação, é necessário os leitores actualizarem-se e aderirem aos novos hábitos de consumo. É verdade que a tecnologia e a informação tiveram um impacto impressionante na forma como as pessoas comunicam e trabalham. Se, há 20 anos, o fax e a caneta eram as principais ferramentas de trabalho; se os correios vibravam com a quantidade de cartas e postais enviados; se as linhas telefónicas estavam entupidas com chamadas; se as notícias eram emitidas nos grandes canais de comunicação, como televisão e rádio, hoje em dia um computador, um tablet ou um smartphone permitem realizar tarefas de forma muito mais célere e eficiente.

Mas será, ainda assim, que a Internet e a Tecnologia como as conhecemos se instalaram para ficar? Acredito que muitas mudanças surgirão a curto e médio prazo, pois parece haver uma enorme movimentação social que tem como objectivo a procura de uma vida com menos ‘ruído’. Vejamos, por exemplo, o caso que tem sido muito falado em França: o governo deste país tem um plano para permitir que os colaboradores possam “desligar-se” do seu trabalho fora do seu horário laboral; ou o debate intensivo nas mais altas patentes governamentais que se foca na Liberdade vs. Segurança (a propósito da disseminação de informação criminosa em larga escala) quando, na verdade, é esta a tecnologia que permite que os serviços secretos comuniquem cada vez melhor a nível mundial; ou a crescente procura por artigos e hábitos considerados vintage para recuperar hábitos e tradições de foro mais tradicional.

Aplicado ao sector da literatura, as questões colocadas não variam e ainda não se encontrou um consenso na resposta, como poderão verificar nesta discussão do Goodreads. Em todo o caso, nunca é demais reler sobre os prós e contras na adesão a livros audio e livros electrónicos.

Considerando o exemplo do leitor que já não o é, é lamentável. Perdeu-se mais um leitor para o outro lado da força😉