O amante japonês (2015), Isabel Allende

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Em 1939, quando a Polónia capitula sob o jugo dos nazis, os pais da jovem Alma Belasco enviam-na para casa dos tios, uma opulenta mansão em São Francisco. Aí, Alma conhece Ichimei Fukuda, o filho do jardineiro japonês da casa. Entre os dois nasce um romance ingénuo, mas os jovens amantes são forçados a separar-se quando, na sequência do ataque a Pearl Harbor, Ichimei e a família – como milhares de outros nipo-americanos – são declarados inimigos e enviados para campos de internamento. Alma e Ichimei voltarão a encontrar-se ao longo dos anos, mas o seu amor permanece condenado aos olhos do mundo. Décadas mais tarde, Alma prepara-se para se despedir de uma vida emocionante. Instala-se na Lark House, um excêntrico lar de idosos, onde conhece Irina Bazili, uma jovem funcionária com um passado igualmente turbulento. Irina torna-se amiga do neto de Alma, Seth, e juntos irão descobrir a verdade sobre uma paixão extraordinária que perdurou por quase setenta anos.

Apreciação

Alma e Irina, duas mulheres muito diferentes que se cruzaram num período crítico da vida de ambas. Uma que cresceu no meio aristocrático, rodeada de serventes e com acesso aos mais variados luxos, nomeadamente ao ensino superior em meados do século XX; e outra que cresceu num lar desfeito, vítima de abusos e sem possibilidade de investir no seu futuro a longo prazo.

Em O Amante Japonês, temos não uma, mas duas personagens principais. À semelhança dos anteriores romances de Isabel Allende, também neste o protagonismo é para o sexo feminino. E também à semelhança das suas obras precedentes, há uma forte contextualização histórica e social que nos permite não só acompanhar a evolução das personagens, mas ainda contextualizá-las em momentos e acontecimentos muito específicos do tempo em que cada uma delas se insere.

A segunda guerra mundial, desta vez abordada numa perspectiva norte-americana, é um dos cenários da vida de Alma e responsável pela mudança drástica na sua vida, pois é na fuga da Europa que Alma inicia um novo capítulo, nos Estados Unidos. Esta guerra, e particularmente o chamado perigo amarelo, são o catalisador que influenciará toda a sua vida. Com uma contextualização muito pormenorizada sobre o que consistiu este perigo e quais as medidas tomadas pelo país para os comportamentos de prevenção, nomeadamente com campos de internamento para japoneses residentes neste território, Allende guia-nos por uma autêntica passagem histórica e muito educativa. Mas, enquadrando estas passagens no desenrolar da narrativa, a verdade é que se fica com vontade que o tempo do livro não salte novamente para o século XXI. É neste período que conhecemos Irina, a nossa outra personagem principal, que luta contra os seus fantasmas e que tenta, acima de tudo, desvendar o segredo de Alma.

A idade é o tema à volta do qual o livro gira, pois está presente página a página e dita de forma imparável o destino das personagens, embora não as suas decisões. O tempo é um tema que cativa Isabel Allende, pois deixa-a questionar-se sobre a sua passagem e sobre a influência que tem em si e nas pessoas que a rodeiam.

Classes e complexos sociais, amor escondido, dilemas morais e o direito à qualidade de vida pelos idosos são os principais temas presentes nesta obra que, com uma escrita apaixonada e com forte influência romântica, colocam uma série de questões sobre questões essencialmente sociais: até que ponto o meio em que a pessoa está inserida influencia a sua liberdade? Quais as maiores diferenças entre uma mulher de 20 anos em meados do século XX e uma mulher de 20 anos no século XXI? O que define o amor, a fidelidade e a traição? Como se pode lidar com o sofrimento físico e o alívio da dor (psicológica e mental) de pessoas idosas que vivem um debilíssimo estado de saúde? A Internet liberta ou é uma prisão? Como se relaciona alguém que luta sozinho para ultrapassar momentos de abuso físico, psicológico e sexual?

Embora não seja, na minha opinião, dos melhores livros de Isabel Allende, este O Amante Japonês é certamente uma boa companhia para quem está à procura de um livro leve e com uma boa dose de história.

Sobre O Amante Japonês:

Isabel Allende considera este um romance moderno, muito contemporâneo. Inspirou-se numa amiga que lhe contou que a sua mãe tinha tido um jardineiro japonês, o que suscitou muito interesse e criatividade na nossa autora.

Para saber mais sobre o livro, não deixe de ler esta entrevista ao El Tiempo sobre a obra, as personagens e a história. Encontre também outras opiniões sobre O Amante Japonês: no blog Dos Meus Livros e no blog Ler y Criticar. Quer ver o booktrailer? Está mesmo aqui.