Sonho de um homem ridículo (1877), Fiódor Dostoiévski

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O Sonho de um Homem Ridículo (em russo: Сон смешного человека) é um conto do escritor russo Fiódor Dostoiévski publicado em 1877. É dividido em cinco partes e contado por um narrador-protagonista que teve uma revelação através de um sonho utópico. Ele relata as suas experiências a partir do momento em que conclui que não há mais nada para viver, e, portanto, determina-se a cometer suicídio. Um encontro casual com uma jovem fê-lo mudar de ideias.

Apreciação

O Sonho de um Homem Ridículo é muito mais que uma passagem pela ridicularia. Neste pequeno conto com algumas dezenas de páginas, Fiódor Dostoiésvki expõe magistralmente algumas das questões mais profundas da condição humana: a escolha do próprio destino e a noção da própria existência. Claro está, sendo Dostoiésvki um dos pais do existencialismo, encontramos achegas profundas – ainda que nas entrelinhas – a esta corrente filosófica.

Começamos por conhecer este homem que se considera ridículo e digno de escárnio, sem aparente auto-respeito e dignidade. O nosso protagonista diz-nos abertamente, desde a primeira página, que é ridículo porque é assim que ele é percepcionado pelas pessoas à sua volta.

Sou um homem ridículo. Agora chamam-me doido, mas não é nada disso; não subi de graduação e sou sempre o mesmo homem ridículo que outrora era. Mas já não me zango, presentemente. Agora todos os homens são para mim agradáveis, mesmo quando zombam de mim: é até nessas ocasiões que me são mais agradáveis. Riria de bom grado com eles, não precisamente a meu respeito mas por lhes ter amizade, se me não sentisse tão triste ao olhá-los. E sinto-me triste porque eles ignoram a verdade, ao passo que eu a conheço. Oh! como é penoso ser o único a conhecer a verdade! E dizer eu que eles jamais a conhecerão! Não poderiam compreendê-la…

À semelhança das suas restantes obras, também esta personagem está exposta a momentos e decisões complexas, neste caso de foro mental e não circunstancial, que levam a personagem a procurar uma solução da escapatória que pode ultrapassar o que é considerado universalmente como racional ou aceitável, roçando o absurdo.

Este homem conhece-se bem e sabe perfeitamente que percurso percorreu até ser algo de zombaria, a qual ele aceita calmamente porque tem uma enorme confiança no segredo que leva no peito. Não que se trate de uma falácia, porque ele de certa forma de sente superior aos que o rodeiam e porque, em parte, sente que pode fazer parte da salvação dessas mesmas pessoas.

Só páginas mais tarde é que compreendemos o percurso do homem e qual o momento impulsionador que o leva a mudar de rumo na vida e a posicionar-se como alguém feliz e pleno, independentemente da ridicularia que sente aparentar. Tudo começa quando decide matar-se.

Sim, era naquela noite que eu devia matar-me. Tinha-o irrevogavelmente decidido dois meses antes, e, mesmo tão pobre como sou, comprara, nessa ideia, um esplêndido revólver e carregara-o logo. Os dois meses, porém decorreram por inteiro e o revólver permanecia na minha gaveta. Tudo me era indiferente, não é assim? Mas queria que isso fosse para mim menos indiferente, a morte, queria matar-me em um momento em que isso me não fosse indiferente de todo. Por quê? Não sei. De modo que, durante esses dois meses, todas as tardes ao penetrar em casa pensava em matar-me. Mas o momento não chegava. E eis que a estrelinha me anunciava, agora, que ele viera, Decidi então que seria absolutamente nessa noite.

Mas algo acontece nessa noite e, ironia do destino, o homem acaba por decidir abraçar a vida como não pensava ser possível quando tem um sonho que, ao despertar, o faz sentir como um salvador. Um Moisés dos tempos modernos. Esse sonho, tão real quanto carregado de elementos de fantasia, é a sua chamada de atenção para o que está errado na humanidade e nele próprio como fruto de uma civilização manchada por pecados, crimes e erros.

A passagem que narra o sonho do homem é muito mais que uma simples história fantasiosa, mas um olhar crítico e uma análise profunda e muito concisa daquilo em que a humanidade se transformou. Seguidor da igreja ortodoxa, parece entender-se que Dostoiésvki deixa encontrar uma forte influência religiosa neste conto, nomeadamente no que respeita à evolução do Homem e à forma como o ‘pecado’ o invade e destrói o paraíso.

Este sonho, ou visão alucinante, do protagonista será apenas um devaneio ou mais uma forte crítica às características negras mais marcantes do Homem contemporâneo do autor? Um desejo de retorno às origens ou uma forma de Dostoiésvki se assumir, ele próprio, como um homem ridículo?

Sobre O Sonho de um Homem Ridículo

Este clássico do final do século XIX foi adaptado pela BBC (The Dream, 1989) pelas mãos de Murray Watts, cujo director é Normal Stone e protagonista Jeremy Irons.

Uma das adaptações menos conhecidas, mas com soberba realização e de uma enorme inspiração, é precisamente a animação com o mesmo nome do livro deste autor clássico. Com um total de aproximadamente 20 minutos, estes dois vídeos apresentam-lhe a inigualável estética russa e a história integral deste pequeno conto. Narrado em russo e com legendas em espanhol, esta animação é uma autêntica obra de arte. Não percam! Para aceder, basta clicar nas imagens abaixo.

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Se ficou interessado neste conto, visite o blog Catálise Crítica ou leia a versão integral aqui.