Quarto de Jack (2010), Emma Donoghue

quarto

Para Jack, de 5 anos, o quarto é o mundo todo. É onde ele e a Mamã comem, dormem, brincam e aprendem. Embora Jack não saiba, o sítio onde ele se sente completamente seguro e protegido, aquele quarto de 11m2, é também a prisão onde a mãe tem sido mantida contra a sua vontade. Contada na divertida e comovente voz de Jack, esta é uma história de um amor imenso que sobrevive a circunstâncias aterradoras e da ligação umbilical que une mãe e filho.

Apreciação

Li sobre este livro há uns anos, quando saiu, mas não tomei nota do nome da autora e acabei por nunca o encontrar. Como tantos outros leitores, foi necessário chegarem os nomeados dos Óscar para me cruzar novamente com este título que, sabia, tinha qualquer coisa de familiar. Estava esquecido. Foi assim que vi o filme: sem sinopses, críticas ou trailers. E só assim este filme pode ser devidamente apreciado.

Se gosta de um bom drama e de uma história emocionante, não leia este texto a partir daqui. Regresse a este post depois de ver o filme ou ler o livro, porque não quero de forma alguma arruinar a experiência aos meus leitores😉

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Depois de ver o filme, que se provou uma experiência fantástica, li o livro. Oh, se li! Devorei o Quarto e fiquei abismada com a riqueza da experiência passada pelo nosso protagonista, o Jack, e a sua mãe; e encontrei-me surpreendida pela subtileza de Emma Donoghue que, narrando a história pela voz de Jack, consegue conferir uma enorme simplicidade e ternura não só à história, como ao relacionamento que o rapaz tem com a mãe.

Enfiados num barracão que pode perfeitamente “não estar em parte nenhuma, mas em pleno espaço sideral”, Jack e a sua mãe constroem uma vida tão equilibrada e estável quanto possível. É assim que mergulhamos na história do Quarto: não sabemos onde estão as nossas personagens, se são livres, se estão doentes, se vivem numa realidade paralela. Não sabemos nada. É página após página, cena após cena, que o terrível segredo nos é desvendado. Cativeiro, violações, solidão. No entanto, é o esforço de Joy, a mãe, que serve de catalisador para o desenrolar dos acontecimentos. Se, por um lado, é uma mulher resiliente que espera pela oportunidade perfeita para a libertação, por outro é uma mãe que quer proteger o seu filho a todo o custo, afastando qualquer possibilidade de a criança sentir medo pelas circunstâncias em que cresceu e pela sua forma de vida.

Parece-me claro que a autora pretendeu tornar esta história o mais próxima possível dos seus leitores, recorrendo a diálogos que poderiam ser tidos por todas mães e filhos do mundo; a raciocínios confusos e limitados, próprios da idade, de uma criança de 5 anos; a momentos de fraqueza e de incerteza que assolam a mãe; e a decisões críticas que demonstram que a coragem e a resiliência são as ferramentas mais fortes para a sobrevivência e para o sucesso. São estas características tão reais que permitem que o leitor entre na história e que se emocione e envolva com estas personagens e com todos os seus obstáculos.

O que é interessante é que Donoghue poderia ter arrastado os momentos de cativeiro indefinidamente, independentemente do curso que a história poderia levar ou do seu desfecho, mas não o fez. Optou por dar um relance do que é a libertação, a recuperação e a integração na sociedade novamente, não esquecendo que Joy faz parte de uma família e que o conforto no seio familiar tem de ser reaprendido não só por si, mas também por quem a recebe. Um dos exemplos é o dos pais: enquanto a mãe de Joy (avó de Jack) se esforça por aceitar os acontecimentos e por receber a sua filha e o seu neto, o pai (avô) não consegue lidar com a situação e acaba por viver em negação, dados os abusos vividos pela filha e de que é fruto o seu indesejado neto.

Com uma forte mas coerente complexidade no que respeita ao relacionamento e enquadramento em duas formas de vida (cativeiro e reintegração), Quarto é uma obra que merece ser lida e devidamente apreciada. O filme também é extraordinário, visto que Lenny Abrahamson, o realizador, não só foi bastante fiel à obra, como contribuiu com alguns retoques muito enriquecedores para a vivência de Joy e Jack em liberdade.

Mais sobre Quarto

Se ficou interessado neste livro, não deixe de visitar o site da autora para aceder a algumas informações adicionais e a críticas várias publicadas por vários Meios de Comunicação internacionais. Clique na imagem abaixo para ouvir o realizador do filme sobre este projecto.

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Leia também outros blogs que publicaram sobre este livro, como o Segredos em Livros ou o Blog da Mari.