O Homem de São Petersburgo (1982), Ken Follett

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Nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, a Inglaterra prepara a defesa contra o Império Alemão. Ambos os oponentes precisam de se aliar à Rússia. O príncipe Orlof, sobrinho do czar Nicolau II, viaja para Londres, onde se encontra com Lorde Walden, casado com a sua tia Lydia. O anarquista russo Kschessinky segue-lhe no encalço. Nesta intrincada trama de interesses pessoais e políticos, ninguém prevê que Lydia reconheça Kschessinky, colocando em perigo a vida da sua filha Charlotte. Estas personagens jogam com o destino da Europa na antecâmara de um dos mais devastadores conflitos de sempre.

Apreciação

Ter um livro de Ken Follett na mão só pode significar que uma montanha russa de emoções nos aguarda. Com um percurso literário marcado essencialmente por registos históricos, com as colecções Pilares da Terra, Mundo Sem Fim ou O Século, e por narrativas de espionagem, como A Chave para Rebecca ou O Terceiro Gémeo, Ken Follett é um dos autores contemporâneos que soma mais best-sellers dentro destes géneros.

Dividem-se as opiniões sobre a relevância dos best-sellers. Afinal, “se apenas leres os livros que toda a gente lê, apenas podes pensar o mesmo que os outros estão a pensar” (Haruki Murakami). Talvez os livros de Follett permitam fugir um pouco à regra e tornar-se uma excepção no que respeita à associação feita entre a (dita) falta de qualidade e o sucesso de um livro (talvez porque, diz-se, que os livros mais fáceis de ler são os mais vendidos?). Em todo o caso, divagações à parte, não encontro – dos que li – um livro de Ken Follett que não seja interessante e que não seja sobejamente (re)conhecido.

Em O Homem de São Petersburgo encontramos algumas das características mais marcantes de Follett: para além de uma consistente e fiel reconstrução histórica, neste caso dos meses que antecedem a grande guerra na aristocracia inglesa, as personagens continuam a ser dos elementos mais sólidos e relevantes para a composição desta narrativa. A análise ao contexto histórico-social, que tem tanto de imparcialidade na narração dos factos históricos como de criticismo aos costumes de época, enquadra este título na prateleira dos romances literários de enquadramento histórico.

Sobre isto, poderemos referir a enorme discrepância de classes sociais no início do século XX num dos países europeus mais civilizados e modernos; a importância do sufrágio e da luta incessante das mulheres para que a igualdade entre géneros fosse uma realidade; os diálogos – ou sussurros – de carácter político que envolviam o governo e as mais elitistas classes, cujas palavras determinaram decisões de carácter bélico com repercursões nas décadas seguintes; a protecção cega por parte das mais altas classes sociais que impedia qualquer tipo de compreensão ou empatia para com as classes trabalhadoras; e mesmo o tabu que era falar sobre sexo ou mesmo partilhar experiências sexuais mais intensas com uma postura aberta e descontraída sobre as mesmas. Assim, é possível reforçar a profunda investigação do autor sobre algumas das mais marcantes características dos anos ’10.

Publicado em 1982, este livro foi lançado muito antes de Follett começar a escrever os três livros d’O Século mas, de certa maneira, poderá ser uma breve introdução ao seu primeiro volume, A Queda dos Gigantes, que aborda de forma muito mais detalhada e profunda os acontecimentos que anteciparam a primeira guerra mundial e os seus desenvolvimentos. Para uma leitura mais ligeira e com uma abordagem mais subtil das abordagens políticas e bélicas, será sem dúvida melhor começar pel’O Homem de São Petersburgo.

Sobre O Homem de São Petersburgo:

Depois de escrever dois livros sobre a segunda guerra mundial, Ken Follett virou as suas atenções para a primeira guerra. Na sua opinião, tratou-se de uma guerra terrível em que o sentimento geral era de que os bons não lutavam contra os maus e que, em retrospectiva, se tratou de uma guerra que precisaria de ter acontecido. Assim sendo, a escolha recaiu sobre uma abordagem Eduardiana. Aqui incluíram-se o anarquismo russo, a bomba de nitroglicerina e um incidente no palácio real. Embora não se trate de um período popular para escritores de thrillers, por preferirem tecnologias e comunicações rápidas, isto não era possível fazer no início do século XX. Por esse motivo, o seu esforço foi reunido na criação de suspense. E com muito sucesso!

Se ficou interessado no livro, saiba mais sobre Ken Follett e este livro no site oficial ou visite o blog Ler y Criticar.