Fuga do campo 14 (2012), Blaine Harden

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Shin Dong-hyuk nasceu e cresceu no Campo 14, um dos imensos complexos destinados a presos políticos da Coreia do Norte. Os seus residentes estão condenados a trabalhar até 15 horas por dia, sofrendo fome e frio, sujeitos a uma rotina de violências sumárias – aos 13 anos, Shin assistiu à execução da mãe e do irmão mais velho por tentarem escapar. De lá, ninguém foge. Existe apenas uma excepção. Determinado a descobrir como é a vida do outro lado da cerca electrificada, Shin supera todos os tipos de dificuldade e consegue deixar a Coreia do Norte. Mas as marcas do passado ainda estão em seu corpo e assombram a sua mente, pois durante muitos anos ele guardou um terrível segredo. Em Fuga do Campo 14, o jornalista Blaine Harden lança luz sobre uma realidade sinistra, que até então permanecia oculta e impenetrável ao olhar do Ocidente. Com sensibilidade, ele acompanha a impressionante jornada de Shin rumo à liberdade.

Apreciação

Pior que ser levado de casa, retirado de uma vida construída, para um campo de trabalhos forçados, é nascer e crescer num campo de trabalhos forçados sem qualquer com o mundo exterior – nem conhecimento de que ele exista. Esta é a premissa do Fuga do Campo 14, a biografia de Shin Dong-hyuk, um dos poucos prisioneiros dos campos de trabalho da Coreia do Norte que não só fugiu do campo, como do país, tornando-o numa das poucas pessoas que alcançou este feito.

Foi o jornalista Blaine Harden que deu voz a Shin e, inadvertidamente, às milhares de pessoas que gritam sem serem ouvidas. Resultando naquela que pode ser uma mistura entre 1984 e biografias de sobreviventes do holocausto, Fuga do Campo 14 é um autêntico guia que coloca a nu a realidade norte-coreana, com um enorme enfoque na vida dos que têm azar de nascer dentro dos campos de trabalhos.

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Shin a discursar sobre a sua presença no campo 14

Delações, medo, fome e dor são os principais elementos de quem faz parte destas enormes comunidades, que estão debaixo de um regime ditatorial exemplar no seu modelo. Se é impossível observar a realidade do país e destes campos, e igualmente difícil confirmar toda a informação partilhada por Shin, levanta-se em simultâneo uma cortina que ajudará a analisar o impacto das decisões políticas na sociedade, nas finanças, na economia, nas relações internacionais e, claro, no desenvolvimento humano em termos físicos, cognitivos e emocionais. Porque Shin não é um homem como outro qualquer, vivendo actualmente em liberdade. Shin não só tem o corpo marcado com os momentos de tortura, como carrega consigo marcas que, aparentemente invisíveis, o impedem de ter um relacionamento social ‘normal’ (ou saudável) ou de sentir emoções como o resto das pessoas sentem.

I am evolving from being an animal,’ he said. ‘But it is going very, very slowly. Sometime I try to cry and laugh like other people, just to see if it feels like anything. Yet tears don’t come. Laughter doesn’t come.

A primeira vez que ouvi falar de Shin e da sua incapacidade de integração na sociedade além Coreia do Norte foi numa entrevista do programa 60 minutos. Embora o enfoque seja todo em Shin, toda a atenção se vira para os direitos humanos e para este regime totalitário. A título exemplificativo, a pena de prisão, nos campos políticos de trabalhos forçados, para quem infringe a lei (perceba-se: para quem tem as “ideologias erradas”) é a do punição do infractor e das suas duas gerações seguintes. Shin faz parte da terceira geração de prisioneiros políticos da sua família.

Fechado ao mundo, o interior da Coreia do Norte continua a ser uma incógnita e um mistério para a comunidade internacional, mas testemunhos como o de Shin acabam por se revelar importantíssimos para se perceber que, em pleno século XXI, os campos ainda existem e que a liberdade para as pessoas pode ser ilustrada como acesso a comida.

High School students in America debate why President Roosevelt didn’t bomb the rail lines to Hitler’s camps. Their children may ask, a generation from now, why the West stared at far clearer satellite images of Kim Jong Il’s camps, and did nothing.

Se ficou interessado neste livro

veja aqui parte da entrevista aos 60 minutos e aqui o programa Toda a Verdade, também emitido pela SIC Notícias, com o título “Coreia do Norte, liberdade ou morte”.