Sobre os cidadãos e as cidadãs

Porque é muito mais do que uma questão de sexismo. É uma questão de linguística. Para explorarmos este tema, optei por partilhar um dos textos que, parece-me, mais claramente reflecte a minha opinião. Concordam?

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Calem-se, por favor, mas de vez!

«’Portuguesas’ e ‘portugueses’ não é apenas um erro e um pleonasmo: é uma estupidez.» É bem verdade, mas apresentemos argumentos um pouco mais científicos.

Com a preocupação de defender os direitos das mulheres, o primeiro-ministro francês fez aprovar o Decreto n.º 84-153, de 29 de fevereiro de 1984, que criou uma comissão de terminologia encarregada de estudar a feminização dos títulos e funções, assim como, de uma maneira geral, o vocabulário respeitante às atividades das mulheres.

A comissão começou a trabalhar com base no pressuposto de que a língua francesa seria machista, assumindo-se que o masculino favorecia um apagamento do feminino, que o masculino se sobrepunha e abafava o feminino. Era essa a ideia do governo francês, e foi com essa ideia que a comissão de terminologia foi criada.

Surpreendentemente para o governo, mas não para os linguistas sérios, a comissão veio declarar que a preferência pelo masculino em nada abafava ou diminuía o valor do feminino. Com efeito, diz a comissão:

«Herdeiro do neutro latino, o masculino mostra-se imbuído de valor genérico, sobretudo nos casos de plural que lhe atribuem a capacidade de referir indivíduos dos dois sexos, neutralizando assim os géneros.»

E continua, a propósito do que refere como «a regra genérica do masculino»:

«Para referir o sujeito jurídico, independentemente da natureza sexual do indivíduo referido, melhor será recorrer ao masculino, uma vez que o francês não tem género neutro.

[…]

A comissão defende que os textos regulamentares devem respeitar o regime da neutralidade das funções.»

Na mesma linha se pronunciou a Academia Francesa, chamando a atenção para a não coincidência do género gramatical e do género natural, que todos os linguistas bem conhecem. De facto, a associação do género gramatical ao género natural (ou sexo) é abusiva. As crianças podem ser do sexo masculino, assim como as vítimas e as testemunhas podem ser homens. Também o príncipe Hamlet é uma personagem shakespeariana. No entanto, a língua marca essas palavras de femininas, independentemente de o referente ser masculino ou não. O crocodilo não é necessariamente masculino nem a mosca necessariamente um animal (ou animala?, para não ser machista) feminino. Em francês, a vítima (la victime) é uma palavra do género feminino, mas a testemunha (le témoin) do género masculino. O género gramatical é uma convenção linguística, tal como o número e o caso, por exemplo.

E contrariamente ao que já foi publicamente dito, não é verdade que «a língua reflete os valores, usos e costumes da sociedade. Promove a desigualdade se usarmos uma linguagem que consagra a ideia do masculino como universal». Não é a língua que promove a desigualdade, é a sociedade que promove a desigualdade. Acusar a língua é deitar poeira para os olhos, dirimindo responsabilidades e deixando a sociedade longe de toda a culpa. A culpa é da língua?! E assim ficarão todos contentes quando falam com os colegas e as colegas.

Optou-se por isso pela poeta, a juiz, para que profissões iguais tivessem denominações iguais. Então o que serei eu? Professora? Professor? Ser poetisa é ofensivo e discriminatório, mas ser maestrina é uma honra. Em que ficamos? Felizmente o bom senso dos portugueses só muito levemente acolheu o delírio da presidenta.

A Academia Francesa viria a pronunciar-se em junho de 1984, defendendo que é imprópria a denominação tradicional dos géneros masculino e feminino. E tem muita razão. A denominação é errónea, uma vez que não se trata aqui de uma distinção entre masculino e feminino, mas de uma distinção entre marcado (ou intensivo) e não marcado (ou extensivo). Na esteira do neutro latino, o masculino é o género não marcado. Quer isto dizer que, quando se verifique oposição de género, o feminino refere-se geralmente ao género feminino, e o masculino refere-se ao não marcado, isto é, aproxima-se do que seria um género neutro. Assim, o dever do professor não exclui a professora, o cartão do cidadão não é só para os homens, e se, perante um acidente, alguém gritar «Socorro, chamem um médico», a médica não tem o direito de continuar caminho, porque, afinal, o que eles queriam era um homem. O mesmo acontece quando aconselhamos alguém a consultar um advogado. Não estamos a falar de um homem, estamos a falar de uma profissão (e profissão é uma palavra feminina, quererá isto dizer alguma coisa?), de uma forma não marcada, de valor próximo do neutro. A ordem dos médicos não exclui as médicas, e na greve dos enfermeiros as enfermeiras também reivindicam. No entanto, a médica que nos atendeu é seguramente uma mulher, tal como a notária, a advogada, a enfermeira, a professora, a aluna, etc.

Como se poderá acusar de ser machista uma língua que marca de feminino o que é feminino e de masculino o que é sexualmente irrelevante? O masculino é de facto o tal género não marcado ou extensivo.

Ofensiva e machista, porém, é sem dúvida a prática de alguns falsos igualitários e pseudodemocratas que têm a preocupação de pôr senhor(a) ou doutor(a). Os parênteses, pelos vistos, não os chocam. Isso, sim, citando Miguel Esteves Cardoso, é uma estupidez. E é profundamente paternalista e machista.

Por Isabel Casanova, no Ciberdúvidas, a 15 de Abril de 2016.