As três vidas (2009), João Tordo

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Quem é António Augusto Millhouse Pascal? Que segredos rodeiam a vida deste homem de idade, que se esconde do mundo num casarão de província, acompanhado de três netos insolentes, um jardineiro soturno e uma lista de clientes tão abastados e vividos, como perigosos e loucos? São estes os mistérios que o narrador, um rapaz de uma família modesta, vai procurar desvendar não podendo adivinhar que o emprego que lhe é oferecido por Millhouse Pascal se irá transformar numa obsessão que acabará por consumir a sua própria vida. Passando pelo Alentejo, por Lisboa e por Nova Iorque em plenos anos oitenta – época de todas as ganâncias – e, desvendando o passado turbulento do seu patrão – na Guerra Civil Espanhola e na Segunda Guerra Mundial -, As Três Vidas é uma viagem de autodescoberta através do «outro». Cruzando a história sangrenta do século XX com a história destas personagens, este romance é também sobre a paixão do narrador por Camila, a neta mais velha de Millhouse Pascal, e sobre a procura pelo destino secreto que a aguarda; que estará, tal como o do seu avô, inexoravelmente ligado ao destino de um mundo que ameaça, a qualquer momento, resvalar da estreita corda bamba sobre a qual ela se sustém.

Apreciação

As Três Vidas foi um livro que me foi aconselhado por uma amiga que lê tanto como eu, depois de ambas lermos O Bom Inverno, do mesmo autor. E, é curioso, podemos mais uma vez confirmar que aquilo que lemos nos define e diferencia dos ademais. Ela adorou, eu nem por isso. Mas vamos por partes:

João Tordo possui em si uma veia de escritor, não há qualquer dúvida. A história complexa deste romance literário coloca-o numa posição bastante interessante no que respeita a jovens escritores e a literatura contemporânea. O cruzamento de linhas narrativas, a profundidade da história das personagens, os pormenores que enriquecem as páginas… Está tudo lá. Mas, na minha opinião, faltam alguns ingredientes para tornar este naquilo que poderia considerar um livro que gostaria de reler.

Atenção! A partir daqui, e para explicar melhor o que achei do livro, incluí alguns spoilers.

De forma geral, não podemos dizer que podemos resumir o livro em apenas uma frase, visto que aquilo que é uma história misteriosa passada em pleno Alentejo acaba por se tornar num policial em Nova Iorque e, mais tarde, um género de deambulação emocional, quais passagens privadas num diário. Em todo o caso, os registos históricos demonstram uma forte investigação de fundo, os quais são cruzados de forma bastante discreta com a narrativa que acompanhamos, o que nos dá a impressão de estarmos a folhear páginas de História.

A tridimensionalidade das personagens é ambígua e, em alguns momentos, fiquei com a impressão de que uma das principais acaba por se limitar a ser isso mesmo – uma personagem fictícia que não convence: Millhouse Pascal, um dos nomes catalisadores desta história, tem tanto de interessante como de imprevisto, dando a impressão que o autor tinha uma ideia muito definida do quem este homem seria, mas com algumas passagens que nos deixam a perguntar se não seria melhor deixar a personagem viver por si, em vez de lhe tentar atribuir ainda mais características. Serão muitas particularidades para um carácter só?

Por outro lado, o nosso protagonista parece-me ter sido pouco aprofundado, pois acabou por se revelar uma personagem submissa que vai ao sabor da corrente. Admito que fiquei sem perceber a fixação da personagem em Camila, visto terem sido poucos os seus encontros e ainda menor a sua envolvência, de forma geral. Mas esta obsessão acaba por se tornar o fio narrativo da história, o que levará o nosso narrador a sofrer imensamente de amor e solidão. Mas, independentemente da sua conturbação, este mesmo homem sofrido é capaz de esquecer um assassinato pelas suas próprias mãos.

Mas, ainda gostando do que lia – porque João Tordo domina a língua portuguesa -, não fui capaz de começar alguma antipatia sempre que lia passagens como “fui de encontro a” (em vez de “fui ao encontro de”), “eu faço isto, eu digo aquilo” (redundâncias), ou mesmo “com vocês” (por oposição a “convosco”). Embora todos possamos adaptar a nossa linguagem e forma de expressão escrita aos vários formatos, não me parece que este tipo de escrevedura seja favorável num romance com tamanha complexidade narrativa. Para além disto, infelizmente houve outra situação que me deixava cansada página após página. Contradizendo os conselhos de Mário de Carvalho, por exemplo, João Tordo adora frases feitas e lugares-comuns: são muitas as passagens em que encontramos expressões coloquiais e clichés em variadas descrições e diálogos, o que, quanto a mim, me afasta do que leio.

Mas, para quem gosta de literatura portuguesa contemporânea, esta pode ser uma obra a considerar.

Saiba mais sobre este livro noutros blogs, porque o interessante na discussão literária é, precisamente, debatermos diferentes perspectivas: