A Partir de uma História Verdadeira (2016), Delphine de Vigan

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A história é contada na primeira pessoa, com Delphine, a narradora, como uma das duas personagens. Todos os nomes são de pessoas reais: o da autora/narradora, o dos filhos, do namorado… A história é aparentemente autobiográfica e, no entanto, torna-se a certa altura um jogo de espelhos, em que é difícil discernir entre realidade e ficção. Nada previsível, cheio de surpresas, com um suspense crescente (chega a ser atemorizante), mantém o leitor literalmente agarrado até ao fim(*). Delphine crê que a sua incapacidade de escrever terá coincidido com a entrada de L. na sua vida. L. é a mulher perfeita que Delphine gostaria de ser: muito bonita, impecavelmente cuidada, de uma grande sofisticação e inteligência. L. está também ligada à escrita – é escritora-fantasma. L. insinua-se lenta mas inexoravelmente na vida de Delphine: lê-lhe os pensamentos, adivinha-lhe os desejos e necessidades, termina-lhe as frases, torna-se totalmente indispensável – é a amiga ideal. Mas, aos poucos, sabemos que ela conseguiu isolar Delphine (afastando toda a gente), que lhe lê os diários, a correspondência, que se faz passar por ela! E quer demover Delphine de escrever o livro que esta está a preparar, obrigando-a a escrever a obra que ela (L.) quer: Introduz-se, assim, na vida da amiga de forma insidiosa, permanente, por fim violenta, controlando tudo. É aqui que há um volte-face na intriga – até aí muito perto do real – e uma possibilidade autobiográfica. O fim é maravilhosamente surpreendente. O seu livro anterior, Rien ne s’oppose à la nuit, em que conta a história da mãe, vendeu cerca de um milhão de exemplares em França e teve vendas na casa das dezenas de milhares em Espanha.

Apreciação

É difícil escrever sobre um livro quando há quem sabe tanto mais sobre ele e acompanha de forma tão próxima a autora. Mas essa é a parte interessante sobre a literatura: quando nos deparamos com um autor pela primeira vez, através da leitura de um dos seus livros, encontramos não apenas uma história, mas todo um universo.

Foi isso que me aconteceu com a Delphine de Vigan. A Quetzal Editores apresentou-me o seu esplendoroso A Partir de uma História Verdadeira e a estrondosa capacidade da autora em nos manipular e envolver numa história que tem tanto de verdadeiro como de fictício, cuja leitura culminou numa única frase: “Acho que vou ter de ler o livro outra vez”.

Tendo como ponto de partida uma fã que se aproxima de uma célebre autora (que assumimos ser a própria Delphine) que se torna uma das suas amigas e confidentes, esta história leva-nos por meandros reconhecíveis em Misery, de Stephen King, ou O Escritor Fantasma, de Zoran Živković, e mesmo por longas-metragens, como algumas (bastantes) de Alfred Hitchcock.

Sabendo exactamente para onde vai e o que tem de dizer (e esconder) ao leitor para criar a trama perfeita, a autora brinca com o leitor e manipula-o: quer que ele acredite no que ela lhe diz; quer que saiba tudo o que acha que precisa de saber para antecipar o desfecho; quer que ele sinta que esta história é, ou poderia muito bem ser, verdadeira. E é precisamente por isso que é possível sentir que nada é certo: porque a protagonista nos avisa desde cedo que a história que está a narrar não tem um final feliz. Ela sabe que nós a ouvimos e que somos, ao longo da narrativa, tão ingénuos quanto ela. Pode dizer-se que aqui a abordagem little did he know, que merece teses de doutoramento para ser analisada, resulta na perfeição.

Não é por acaso que Roman Polanski já está a trabalhar neste livro para a sua adaptação ao cinema. Previsto para 2018, este filme contará com Eva Green e Emmanuelle Seigner para encarnarem Delphine e L., uma das mais misteriosas mulheres dos anos ’10 do século XXI. A quem leu o livro, colocam-se, pois, inúmeras questões: como será que o realizador abordará o roubo de identidade? Quem é L.? Como será o final? Qual a sua leitura da história? Que interpretação faz do desfecho?