Doutor Sono (2016), Stephen King

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Uma tribo de gente chamada o Nó Verdadeiro viaja à procura de sustento pelas autoestradas da América. Parecem inofensivos e são, sobretudo, velhos. Mas, tal como Dan Torrance bem sabe, e Abra Stone não tarda a descobrir, os membros do Nó Verdadeiro são quase imortais e vivem do «vapor» produzido pelas crianças com o «brilho» quando são lentamente torturadas até à morte. Assombrado pelos residentes do Hotel Overlook, onde passou um ano horrível da sua infância, Dan anda há décadas à deriva, tentando libertar-se do legado de desespero, alcoolismo e violência deixado pelo seu pai.

Por fim, instala-se numa cidade de New Hampshire, numa comunidade de Alcoólicos Anónimos que o apoia e num trabalho num lar, onde o «brilho» que lhe resta oferece um derradeiro conforto aos moribundos. Com o auxílio de um gato presciente, torna-se o «Doutor Sono». E depois Dan conhece a evanescente Abra Stone, e é o espetacular dom dela, o brilho mais vivo que ele já viu, que dá novo alento aos fantasmas de Dan e o impulsiona para uma guerra épica entre o bem e o mal para salvar Abra e a sua alma.

Apreciação

Mal soube que Stephen King estava a trabalhar na sequela de The Shining, coloquei o livro na to-read list. Embora a minha preferência no que respeita à narrativa se encaminhe indubitavelmente para a adaptação cinematográfica de Stanley Kubrick, não seria possível saber que Dan Torrance é adulto e não acompanhar o seu crescimento e a forma como lidou com o seu brilho ao longo dos anos.

Podemos, efectivamente, dizer que esta é uma sequela do The Shining: não apenas Dan Torrance é a personagem principal, como o autor fez questão em ter presentes os elementos mais importantes do seu primeiro livro desta pequena colecção: as assombrações, os traumas, as personagens e os cenários mantêm-se, o que, de certa forma, nos permite localizar Dan imediatamente após a sua saída do Hotel Overlook e conhecer a sua vida.

Mas esta é muito mais do que uma visão dos dias de Danny: como leitores, somos obrigados a deixar a sua infância para trás e encará-lo definitivamente como um adulto, com todas as suas falhas, medos, ansiedades e dificuldades. Mais do que um homem que lidou com enormes mudanças na sua vida, nomeadamente com a morte do pai no Hotel, é uma pessoa em constante transformação: a luta com o seu passado, na qual tenta entender porque é como é e porque lhe aconteceu o que aconteceu; o subterfúgio no álcool para atenuar as assombrações e tentar aligeirar todas as suas perturbações físicas e mentais; e a procura por um futuro estável no qual possa cortar com o seu passado e, de certa forma, com a sua pessoa, enganando-se a si mesmo. Dan torna-se um adulto completo e complexo.

A integração na existência do Nó Verdadeiro, um género de gang que suga almas para te manter imortal, é um processo moroso que implica a coordenação de pormenores vários na narrativa. A complexidade por que Stephen King optou é capaz de, simultaneamente, enriquecer a história e desacelerar o ritmo de leitura, dados os pormenores do quotidiano e características atribuídas às personagens.

Nesta autêntica montanha russa é possível ter The Shining em mente e, ainda mais, dotar uma personagem literária numa pessoa real. E é por isso que me agradou tanto ler o Doutor Sono: porque é indubitavelmente a segunda parte do livro escrito há 36 anos.

Se ficou interessado no livro, leia mais noutros canais:

Doutor Sono, da Bertrand Editora.
Outubro de 2016