A Amiga Genial (2011), Elena Ferrante

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“A Amiga Genial” é a história de um encontro entre duas crianças de um bairro popular nos arredores de Nápoles e da sua amizade adolescente. Elena conhece a sua amiga na primeira classe. Provêm ambas de famílias remediadas. O pai de Elena trabalha como porteiro na câmara municipal, o de Lila Cerullo é sapateiro. Lila é bravia, sagaz, corajosa nas palavras e nas acções. Tem resposta pronta para tudo e age com uma determinação que a pacata e estudiosa Elena inveja. Quando a desajeitada Lila se transforma numa adolescente que fascina os rapazes do bairro, Elena continua a procurar nela a sua inspiração. O percurso de ambas separa-se quando, ao contrário de Lila, Elena continua os estudos liceais e Lila tem de lutar por si e pela sua família no bairro onde vive. Mas a sua amizade prossegue. “A Amiga Genial” tem o andamento de uma grande narrativa popular, densa, veloz e desconcertante, ligeira e profunda, mostrando os conflitos familiares e amorosos numa sucessão de episódios que os leitores desejariam que nunca acabasse.

Apreciação

Ao longo dos últimos meses, foram inúmeras as notícias e discussões em torno da identidade de Elena Ferrante, autora de, entre outros, A Amiga Genial, livro integrado numa colecção de quatro volumes. Se, por um lado, é legítimo que um escritor, seja ele qual for, reserve a sua identidade e permaneça no anonimato, por outro, é também previsível que os seus leitores se sintam intrigados perante a riqueza de pormenores e a realidade ilustrada ao longo desta história de centenas e centenas de páginas. Num ponto de vista comercial e de Marketing, talvez o interesse despoletado em torno d’A Amiga Genial um pouco por todo o mundo não tenha sido mal recebido. Basta ver, por exemplo, os tops em Portugal no último trimestre, por exemplo, para perceber o impacto (positivo) que a divulgação da identidade verdadeira da autora, através da enorme mediatização na Comunicação Social e análise na blogosfera, teve por cá. Mas deixemos esta abordagem para outras núpcias e avancemos para aquilo que interessa: os seus livros.

Editados em Portugal pela Relógio d’Água, os livros d’A Amiga Genial possuem algo que, a mim, me influenciou ainda mais à compra do primeiro volume: a capa. Mas não apenas a capa: todo o cuidado com que o livro foi editado revela-se nos acabamentos. É, na realidade, um produto final perfeito.

Depois de o ter comigo, devorei-o em poucos dias. Fiquei fascinada com a forma como Ferrante nos leva de novo à infância, recorrendo ao olhar de uma criança de aproximadamente seis anos, que, com toda a sua ingenuidade, nos apresenta o mundo à sua maneira. É precisamente esta elasticidade, ou capacidade, de Ferrante se adaptar às várias fases da vida de uma pessoa e de nos introduzir na sua mente como se de memórias (reais) se tratassem que torna estes livros tão ricos e próximos do leitor. Será que não sao, mesmo, memórias?

Com início em A Amiga Genial, toda a história compilada em quatro volumes desenrola-se maioritariamente em Nápoles em meados dos anos 50. Encontramos uma cidade – e um país – a refazer-se de uma guerra; um bairro paupérrimo que se encontra numa espiral de desespero e desesperança, de doenças e de máfias; e habitantes com vidas modestas que se acomodam com o seu fado triste e sofrido. Esqueçamos os episódios de infância, os (des)amores da juventude, as interrogações da idade adulta. Aquilo que Ferrante faz é um retrato do que é, ou era, a vida em Nápoles até finais do século XX e, ainda, uma breve crítica – ou análise, ou observação – às pessoas e ao seu potencial. E como o faz?

Deparamo-nos com duas crianças, aparentemente geniais, que competem entre si para vencer todas as provas que o ambiente escolar lhes oferece: testes, avaliações, confrontos sociais, entre muitas outras. Qual é, afinal, a criança genial? No fim, e na realidade, é aquela que tem a possibilidade de explorar a sua inteligência e vingar na vida, sob a (aparentemente despreocupada) visão e sonhos dos seus pais. Uma estuda, a outra não. Uma desenvolve o intelecto, a outra continua o negócio de família; uma exige cada vez mais de si, a outra vai perdendo o interesse na cultura. A resposta à pergunta acima, neste contexto, é simples: é genial aquela a quem são dadas oportunidades, mesmo que isso exija um sacrifício da família. Mas a outra não lhe fica atrás: o seu génio fica, pura e simplesmente, adormecido e é acordado em momentos-chave da sua vida: na sua criatividade artística, na análise dos negócios, na antecipação das mudanças  no mercado de trabalho.

O que é curioso nestas duas crianças – e jovens; e mulheres adultas – é que precisam uma da outra para viver. Mantêm uma relação de amor-ódio. Não se toleram mas precisam uma da outra para provar, cada uma na sua realidade, que são capazes de dar significado à sua vida e, à sua maneira, superar a outra. Uma fá-lo através dos estudos, a outra através do dinheiro e dos bens materiais. Não interessa a forma, mas o conteúdo e os meios utilizados para chegar aos fins: a vaidade e o orgulho são características predominantes de ambas as personagens e acabam por criar uma amizade perversa e disfuncional que se prolonga durante décadas. Não interessa se alguma delas vence no final, pois o objectivo da história não é perceber qual de ambas é a melhor. Trata-se, sim, de uma história que se perde em pormenores e subtilezas encontradas fora das páginas de qualquer livro: conta uma história de vida.

Sobre a colecção:

Títulos: A Amiga Genial (2011), História do Novo Nome (2012); História que Quem Vai e de Quem Fica (2013), História da Menina Perdida (2014).
Editora em Portugal: Relógio d’Água Editores
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