Que já me magoaste me sossega

Que já me magoaste me sossega
e por mágoas e então, que ainda passo,
peso das minhas faltas me carrega,
nem os meus nervos são de bronze ou aço.
Pois se em minha rudeza te abalei,
e tu a mim, o que infernal te oprime,
com ser tirano, tempo não gastei
pesando o que sofri pelo teu crime.
Ah, nossa dor nocturna em mim lembrasse,
bem fundo, quanto dói funda tristeza
e, como a mim me deste, te prestasse
bálsamo humilde à dor no peito acesa.
Torne-se um preço a ofensa que em ti vinha;
resgate a minha a tua, a tua a minha.

in Os Sonetos de Shakespeare, tradução de Vasco Graça Moura. Quetzal Editores. Outubro de 2016.

Advertisements