Problemas dos leitores #3

O que ler – escolher como tarefa hercúlea

Li há uns dias que, em média, uma pessoa lê 6.000 livros ao longo da sua vida. Se escolher um livro já era uma tarefa difícil, não será este o argumento perfeito para que um leitor se sinta esmagado por tamanha responsabilidade?

Em tempos, forcei-me a ler livros de que não estava a gostar apenas porque sim. Porque precisava de terminar a leitura. Por orgulho. Não sei. Mas a minha to-read list estava a crescer a olhos vistos e sentia, se assim que pode dizer, uma tensão crescente. Proporcional ao crescimento da minha lista.

Será possível que uma pessoa se pode sentir tão pressionada para fazer boas escolhas? Talvez isto seja o Preço Certo dos leitores: escolhe bem. Não perderás dinheiro (ou talvez sim) nem um grande prémio (quem sabe?), mas garantidamente perderás tempo. Se escolhes este livro em detrimento daquele, poderás estar a errar o alvo. Podes não estar a aprender aquilo que precisas mesmo de aprender neste exacto momento da tua vida. Podes estar a escolher um que não te satisfaz e, por isso, terás de passar por este mesmo processo daqui a uns dias. Habitua-te, és leitor.

Não fosse já suficiente esta pressão do leitor viciado, agora vê-se frente-a-frente com a pressão dos pressões: conta o teu tempo. Tens um saldo de 6.000 livros. Ou talvez ainda menos, meu amigo, se só lês 12 livros por ano. Isso significa que o teu saldo é ainda mais baixo e que isso te reduzirá ainda mais o número de livros que efectivamente lerás o que, então, é inversamente proporcional ao leque de livros que tens à disposição: numa livraria, numa tarde, são milhares de títulos. Ao final desse ano, esse número ter-se-á multiplicado sabe-se lá por quanto. E falamos apenas da tua livraria. Não estamos a considerar os outros milhares e milhões de títulos que estão e virão a ser trabalhados por escritores e editoras em todo o mundo, no tempo em que estás e que aí vem.

Por isso tem cuidado, caro leitor, porque tens uma grande responsabilidade: escolhe bem e sensatamente e faz bom uso das tuas leituras. Afinal, 6.000 livros é muito pouco. E mesmo que fosse apenas um: o que lermos tem de nos fazer a diferença.

Obrigada, Kafka.

Advertisements