Pensar. Sentir. Viver. (2017), Judite Sousa e Diogo Telles Correia

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Neste livro, conversam frente a frente, sem rodeios, Judite de Sousa e Diogo Telles Correia: uma jornalista experiente e incisiva, sem medo de perguntar; um psiquiatra, psicoterapeuta e professor universitário, disposto a responder.

Falam de temas relacionados com a mente, o que a mantém saudável e o que a faz adoecer, enquadrando a doença (e a saúde mental) não só nos nossos genes mas também no mundo que nos rodeia.

Uma incursão profunda no campo da saúde e da doença mental onde o sofrimento não é uma anomalia, nem um obstáculo insuperável: quem precisa pode sempre encontrar ajuda porque não estamos sozinhos nas nossas dúvidas, nem nas nossas dores.

Apreciação

A vida é um novelo que alguém amaranhou. Há um sentido nela, se estiver desenrolada e posta ao comprido, ou enrolada bem. Mas, tal como está, é um problema sem novelo próprio, um embrulhar-se sem onde. – Fernando Pessoa

É assim que o leitor é saudado e recebido neste novo livro escrito a quatro mãos por Judite Sousa e Diogo Telles Correia. Judite Sousa, reputada e experiente jornalista, orienta uma conversa com Diogo Telles Correia, psiquiatra, durante a qual são abordadas várias doenças mentais e as respectivas formas de acompanhamento e terapia. Dividido em seis capítulos, cada qual dedicado a uma área específica – Enigmas da mente, Ansiedade, Depressão, Doença mental grave, Alívio da dor mental e O homem do século XXI – , este livro tem o papel fundamental de esclarecer sobre o que é a doença mental, o que as provoca e quais os tratamentos possíveis. Embora a carga clínica seja bastante acentuada ao longo das quase duzentas páginas, a verdade é que o tom coloquial e a linguagem adoptada por ambos os autores permitem uma leitura esclarecedora e uma percepção muito clara daquilo que é a doença mental.

A depressão

Andrew Solomon escreveu naquela que e considerada a bíblia da depressão, O Demónio da Depressão (2016, Quetzal Editores), que cerca de metade da população mundial irá sofrer de qualquer tipo de doença do foro psicológico pelo menos uma vez na vida. E que, desse número, uma taxa bastante significativa de pessoas terá de lidar com esse quadro mais do que uma vez na vida. Em Pensar. Sentir. Viver., Diogo Telles Correia refere estes números e muitos mais, apresentando um cenário muito pessimista daquela que é a realidade actual e o futuro próximo. Para tal, o psiquiatra explica que é fundamental conhecer-se a doença mental e continuar-se a investigar sobre o tema para que haja informação disponível e relevante não apenas para a comunidade médica, mas também para a sociedade. E este é um ponto a que Diogo Telles Correia regressa com alguma frequência, porque considera que a desinformação ainda é muita e que isso pode ter efeitos bastante negativos naqueles que padecem de qualquer tipo de doença mental e, em particular, de depressão.

pensar_sentir_viver_depressao“Basta saíres de casa e apanhares ar fresco para te sentires melhor” é uma frase recorrente que quem sofre de depressão ouve. Porquê? Porque esta é uma doença invisível e a pessoa não demonstra sinais visíveis de dor, sob a forma de feridas sangrentas, ligaduras, falta de visão ou outros. Na realidade, a depressão é uma doença que não é visível a olho nu nem é detectável através de exames médicos, visto que se trata de um género de desregulação química no cérebro que afecta os neurotransmissores. Há um diverso leque de motivos que podem levar a uma depressão, sobre os quais Judite e Diogo conversam para que se tente perceber de forma clara e definitiva do tipo de doenças mentais existem e quais as mais frequentes.

A ansiedade

A ansiedade é uma situação muitíssimo frequente nos dias que correm. Pensa-se que 20% a 30% das pessoas podem vir a experimentar ao longo da sua vida uma perturbação de ansiedade (…). Assim, pode haver não só um aumento da prevalência da ansiedade, como pode a ansiedade ter-se incorporado como característica hegemónica da sociedade actual. Como se fosse uma forma de o nosso corpo de adaptar (mal) às exigências e estímulos permanentes do mundo actual.

É assim que Diogo Telles Correia começa por falar da ansiedade, levando-o a tomar Augusto Cury como exemplo. Também este psiquiatra dedica um livro (inteiro) ao tema (publicado em Portugal em 2015 pela Pergaminho, com o nome Ansiedade – Como Enfrentar o Mal do Século), no qual define a síndrome do pensamento acelerado (spa) como uma situação que se caracteriza por ansiedade, mente inquieta, irritabilidade, défice de concentração e memórias, entre outros. O que contribui, então, para a ansiedade e para a spa? Muito.

pensar_sentir_viver_ansiedadePor um lado, há pessoas com uma personalidade tendencialmente ansiosa e com tendência para a manter ao longo da sua vida – aqui, ela é considerada crónica – e que poderá contribuir também para o desenvolvimento de perturbações psiquiátricas. Por outro lado, Diogo Telles Correia explica ainda que a ansiedade pode desenvolver-se em pessoas sem este traço, “tendo como fator precipitante determinada situação de vida mais difícil”. Em qualquer dos casos, a ansiedade por manifestar-se de várias formas, nomeadamente através da dores de cabeça, tonturas, palpitações, entre muitas outras, o que pode levar os doentes a procurar médicos de outras especialidades antes de encontrarem um psiquiatra que as ajude a lidar com a ansiedade através de psicoterapia ou medicação.

Somos a sociedade que herdou a globalização. Apesar das enormes vantagens que todos conhecemos, poderá haver consequências para a mente humana? Como será mental e existencialmente o homem do século XXI? Como devemos encarar o mundo em que vivemos do ponto de vista mental? Estamos a viver numa bolha?

Esta é a primeira pergunta que Judite Sousa coloca no início do último capítulo, durante o qual se faz uma breve análise à sociedade, à tecnologia, hábitos de consumo e ao futuro, colocando um ponto final no que diz respeito (nomeadamente) à depressão e à ansiedade. Diogo Telles Correia discorre sobre as alterações abruptas nos hábitos quotidianos e a influência tremenda que a tecnologia faz sobre as formas de relacionamento, afirmando que o homo globalis, de Carlo Strenger, passa a definir a sua realidade e a sua própria importância por via de dados quantificáveis, e não qualificáveis de uma forma mais lata ou abstracta. Fala-se aqui da imagem, da reputação e da fama, da necessidade de afirmação e da tentativa permanente de se ir ao encontro das expectativas de terceiros, e não às do próprio. Para além deste preterimento da autenticidade, é importante ainda ter em consideração a alteração dos hábitos sociais provenientes do surgimento de novos canais de comunicação, o que, de forma geral, poderá contribuir para uma baixa na auto-estima, para a solidão e para uma visão individualista enquanto actor na sociedade.

E mais

Mas o livro é muito mais do que depressão e ansiedade. Esquizofrenia e suicídio, por exemplo, são outros dois tópicos de que os autores falam e sobre os quais pretendem deixar informação clara, relevante e actual, apresentado dados, exemplos e soluções para todos aqueles que, em qualquer momento da sua vida, se cruzem com doenças do foro mental – em si ou em alguém próximo. O que é importante reter é que a doença mental, seja ela qual for, não é nem deve ser um tabu. Pelo contrário, quanto mais informação estiver disponível, mais facilmente estas situações poderão ser encaradas. E, com este livro, não tenho dúvidas de que muitas respostas vão surgir. Aliás, foi por isso que gostei tanto de o ler: porque para além de apresentar respostas, é optimista.

A respeito deste livro, que chega às livrarias a 5 de Maio pela Bertrand Editora, gostaria ainda de vos sugerir um artigo muito completo elaborado pela revista Sábado, no qual poderão ficar a conhecer ainda melhor não apenas este livro, mas as grandes doenças mentais do século XXI.

Sobre o livro:

Pensar. Sentir. Viver.
Autores: Judite Sousa e Diogo Telles Correia
Editora: Bertrand Editora
Publicação: Maio de 2017

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