Uma menina está perdida no seu século à procura do pai (2014), de Gonçalo M. Tavares

menina_perdida_seculo_procura_pai

Hanna e Marius, Berlim, Século XX.

Marius encontra uma menina perdida à procura do pai. Hanna, rapariga, cabelos castanhos, olhos pretos, catorze anos. Hanna fala com dificuldades, entende mal o que lhe acontece, não percebe o raciocínio dos outros. Está perdida.

Marius está com pressa mas muda o seu percurso, acompanha-a.

A sua busca leva-os até Berlim, a um hotel com corredores que lembram fantasmas da guerra — e os dois circulam entre as obsessões e os escombros do seu século.

“- E vocês? De onde vêm?
Tentei explicar-lhe que não era um homem falador. Gosto de ouvir, disse-lhe, não tenho muito para dizer.
Ele perguntou, virado para Hanna:
– Como te chamas?
Hanna respondeu. Ele não percebeu. Hanna repetiu, ele continuou sem perceber. Eu repeti:
– Chama-se Hanna.
– Hanna – disse Fried. – Bom.
– Que idade tens?
– Catorze – respondeu, e agora percebeu-se.
Fried sorriu para ela, simpaticamente. Ela disse:
– Olhos: pretos. Cabelo: castanho.
Eu disse: – Ela aprendeu assim.
Depois ela disse:
– Estou à procura do meu pai.
Fried sorriu, não disse nada.”

Apreciação em cinco pontos:

  • Gonçalo M. Tavares acompanha uma criança deficiente à procura do pai e, ao seu estilo incomparável, leva o leitor numa viagem que tem tanto de abstracto como de real. A sobreposição do ridículo com a carga histórica e científica emerge-nos numa realidade de características únicas e com personagens com personalidades muito particulares;
  • A menina, uma das protagonistas, não intervém em momento nenhum na narrativa, salvo raras excepções. É com a sua frase “Estou à procura do meu pai” que Marius a decide ajudar e a empreender uma viagem singular. Os diálogos entre Marius e Hanna, esta rapariga com capacidade relacional, comunicacional e social limitada, são escassos, mas é precisamente a relação entre ambos e a necessidade de encontrar o pai que os leva a aproximarem-se;
  • Esse é o início de uma busca incessante, mas calma. Na viagem, é possível encontrar alguns acontecimentos marcantes do século XX e, quando isso acontece, é possível espreitar pela fechadura: o holocausto, por exemplo, marca uma forte presença sem que, no entanto, o autor entre em pormenores sobre os seus horrores. Quando Marius e Hanne ficam hospedados no hotel cuja planta arquitectónica respeita a geografia dos campos de concentração, é fácil ter-se a noção de que ambos dormem tranquilamente no quarto com o nome Auschwitz. A história, o passado, tudo ficou para trás e resta a memória de tempos sangrentos naquele que é um presente pacífico;
  • Encontra-se neste livro a visão onírica de Gonçalo M. Tavares, como se olhássemos para esta história através de um livro fosco. O facto de o autor alternar a voz entre a primeira e a terceira pessoa, por vezes no mesmo parágrafo, contribui precisamente para reforçar esta ideia. Nesta narrativa tão coerente, as ideias e as personagens, tal como outros pormenores (de um abraço, de uma palavra, de hábitos inusitados das personagens) são surpreendentes e ilustram a exploração criativa;
  • Será justo dizer que o livro pretende ilustrar que a diferença não é importante? Que a normalidade e a loucura se podem encontrar num equilíbrio perfeito? Que é possível alcançarmos os nossos objectivos se nos propusermos a isso? Que a loucura pode ser compreendida se estivermos receptivos a ela e dispostos a entendê-la? Ou será que isso permitiria um contágio?

Havia, espalhados pelo mundo, sete homens, sete judeus, que tinham memorizado, sem qualquer falha, toda a História do século XX. Com factos, disse Tezerin, com datas concretas, tentando eliminar qualquer interpretação ou julgamento.

Ficha de Uma menina está perdida no seu século à procura do pai:
Gonçalo M. Tavares
Publicação: 2014
Editado em Portugal pela Porto Editora.

Para saber mais sobre este livro, visite:

Advertisements