Um estranho amor (1992), Elena Ferrante

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«Ferrante disse que gosta de escrever histórias “em que a escrita é clara, honesta, e em que os factos — os factos da vida normal — prendem extraordinariamente o leitor”. Com efeito, a sua prosa possui uma clareza despojada, e é muitas vezes aforística e contida (…). Mas o que os seus primeiros romances têm de electrizante é que, ao acompanhar complacentemente as situações desesperadas das suas personagens, a própria escrita de Ferrante não conhece limites, está ansiosa por levar cada pensamento para diante, até à sua mais radical conclusão, e para trás, até à sua mais radical origem. Isto é sobretudo óbvio na forma destemida como os seus narradores femininos pensam sobre filhos e sobre maternidade.» – Do Prefácio de James Wood

[sinopse de Crónicas de Mal de Amor]

Apreciação

Um Estranho Amor é umas das histórias de Elena Ferrante compiladas pela editora Relógio d’Água no livro Crónicas de Mal de Amor publicado em Portugal em 2014. É importante ressalvar isto pois, depois de ter devorado a tetralogia d’A Amiga Genial no final do ano passado, resolvi ler todos os livros desta autora napolitana. Faltando-me apenas as três histórias deste livro e o Escombros, opto por me ir deliciando devagarinho com cada uma delas e ir espaçando ao longo do tempo o que seu ainda há para ler.

É possível dizer que Elena Ferrante coloca muito de si em cada um dos seus livros e que há muitos traços comuns em cada uma das suas histórias: as mulheres fortes e independentes que vivem numa sociedade patriarcal e que têm de lidar com todos os obstáculos e vicissitudes desse ambiente; os pormenores da vida napolitana que enquadram a narrativa na perfeição e que permitem visualizar cada espaço e personagem como se nos fosse possível assistir a esta realidade espreitandor pela janela; a voz feminina que narra as histórias e que confere uma enorme legitimidade e credibilidade aos relatos, como se de eventos verdadeiros estivessem a ser narrados. Talvez seja por isso que Elena Ferrante seja exímia na sua escrita e que a leve a ser considerada uma excelente contadora de histórias, as quais são simultaneamente delicadas e ricas em pormenores – tão complexos quanto subtis.

Em Um Estranho Amor acompanhamos uma mulher de quarenta anos que recebe a notícia da morte da sua mãe e que tenta perceber em que contexto tal terá acontecido. Um acidente ou um suicídio? Mas não é isso que importa para a autora. O que é de ressalvar é a transformação desta filha que, deparada com das mais dolorosas das notícias, embarca numa viagem que a levará a conhecer-se também a si própria, mas sem lugares-comuns. A tentativa de compreender a mãe e as suas decisões ao longo da vida permitem que a nossa protagonista se coloque o lugar da mãe, o que, muitas vezes, resulta numa mistura de realidade com imaginação e/ou memórias. A filha imagina a mãe em determinada situação e descreve-a como se estivesse à sua frente, calcula o que a mãe poderia estar a pensar e a fazer, tenta adivinhar o que a levou levar a vida que levava.

Esta viagem ao passado muitas vezes apresenta obstáculos à protagonista, a qual, com o passar do tempo, começa a ter de lidar com o seu próprio passado e com a sua identidade. A relação de amor-ódio é revelada e a filha acaba por perceber que ela própria pode encarnar aquilo que a mãe foi, independentemente da distância que poderiam ambas ter entre si. Isto coloca questões muito relevantes – e tão antigas quanto o tempo – sobre a identidade do próprio e sobre a liberdade que as pessoas alcançam na idade adulta: até que ponto as decisões dos pais influencia a vida dos filhos? Conseguirão os filhos alguma vez afastar-se da influência dos seus pais, mesmo que não seja taxativo que os filhos tenham de manter os comportamentos adoptados na infância no seio familiar?

Ferrante, em Um Estranho Amor, continua a fazer aquilo que mais gosta de fazer: entrar nas histórias banais, da vida comum, e contar exemplarmente histórias que bem poderiam ser reais. Como afirma o Expresso neste artigo publicado sobre a autora,

Nas cartas que escreveu aos editores, a publicar em “La Frantumaglia” (livro que a Relógio D’Água lançará este ano com o título “Escombros”), Ferrante fala da vontade de “preencher o leitor com os factos da vida normal”, mesmo que as vidas que escolhe sejam sempre densas, dramáticas, tão pequeninas quanto grandiosas.

Sobre o livro:

Título original: L’amore molesto
Publicado originalmente em 1992
Editado em Portugal em 2014
Editora: Relógio d’Água

Se quiser saber mais sobre o livro, não perca:

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