Objectos Cortantes (2006), de Gillian Flynn

Recém-chegada de um internamento breve num hospital psiquiátrico, Camille Preaker tem um trabalho difícil entre mãos. O jornal onde trabalha envia-a para a cidade onde foi criada com o intuito de fazer a cobertura de um caso de homicídio de duas raparigas.  Há anos que Camille mal fala com a mãe, um mulher neurótica e hipocondríaca, e quase nem conhece a meia-irmã, uma bela rapariga de treze anos que exerce um estranho fascínio sobre a cidade. Agora, instalada no seu antigo quarto na mansão vitoriana da família, Camille dá por si a identificar-se com as vítimas. As suas pistas não a conduzem a lado algum e Camille vê-se obrigada a desvendar o quebra-cabeças psicológico do seu passado para chegar ao cerne da história. Acossada pelos seus próprios fantasmas, terá de confrontar o que lhe aconteceu anos antes se quiser sobreviver a este regresso a casa.

Apreciação

Não há como contornar. Gillian Flynn é exemplar e o seu romance de estreia confirma-o. Depois da sua publicação em 2006, a comunicação social internacional teceu-lhe os maiores elogios. Daily Mail, Independent, Sunday Telegraph, entre tantos outros, são apenas alguns dos jornais que receberam Objectos Cortantes com o maior entusiasmo. Os leitores confirmaram este arrebatamento e deixaram-se levar pelo mistério e pela narração emocionante, dura e complexa. Uma escritora tinha nascido e leitores fiéis também.

Este livro acompanha o regresso de uma jornalista à sua terra natal na América do Norte profunda para fazer a cobertura e investigação do homicídio de duas crianças perpetrado por aquele que deverá ser um assassínio em série. Aquela que é, portanto, uma história aparentemente banal revela-se a cada página uma montanha russa de emoções, pelo mais diverso leque de motivos.

Por um lado, é importante ressalvar que nós, leitores portugueses, poderemos sentir uma certa estranheza quando imergimos na cultura norte-americana, nomeadamente nesta localidade rural onde se passa a história. Em Objectos Cortantes, Flynn recria na perfeição o perfil perfeito de uma comunidade marcada pela superficialidade, leviandade e futilidade. Em vários momentos ao longo da leitura, deparamos-nos com as escolhas tomadas pelas personagens, pela sua forma de vida e pela maneira como encaram alguns aspectos do quotidiano (e não só), alguns deles absolutamente diferentes da realidade portuguesa (e europeia, na verdade). Esta terra afastada dos grandes centros urbanos tem uma particularidade: produz cerca de 2% da carne de porco para todo o país e, por esse motivo, grande parte da sua população (umas 2.000 pessoas) tem uma vida bastante desafogada. E é aí que nos deparamos com as enormes diferenças culturais e, nessa altura, temos de recorrer aos nossos óculos kuhnianos para compreender e aceitar a realidade desta história: diamantes, jóias, roupa; imitação de comportamentos da alta sociedade pela classe média; gossip; relacionamentos familiares duvidosos e admiráveis, presentes em filmes de Domingo à tarde. Isto é ainda mais intensificado por aquilo que nos é exposto do relacionamento da protagonista com a sua família e, em particular, com a sua mãe. A disfunção no ambiente familiar nuclear, o entrave na comunicação e o afastamento emocional contribuem para que a relação entre mãe e filha seja revelada de forma muito intensa e sem cerimónia.

Por outro lado, o trabalho feito com as personagens é exímio. Estas pessoas possuem uma personalidade forte, única, credível. A identidade de cada uma delas difere da da seguinte, o que permite uma compreensão clara da perspectiva de cada uma delas. De ressalvar ainda a importância que a autora dá ao enquadramento das personagens no seu meio (e considerando os seus vários papéis sociais) para credibilizar as personagens e atribuir-lhes uma voz própria. Não precisamos de muitas explicações sobre o enredo ou sobre o papel de cada uma das pessoas, porque são manifestadas capítulo a capítulo em cada uma das suas intervenções – as suas motivações são expostas a pouco e pouco e as suas decisões justificam-se mediante aquilo que as move e mediante aquilo que são.

Segredos, maldade, alheamento da realidade, vingança, dor, distúrbios de personalidade.. Um enredo montado na perfeição e uma intensidade crescente.

O livro de Flynn vai mais fundo do que a generalidade dos thrillers. Tem o ritmo narrativo dos melhores romances e a complexidade psicológica de um estudo de personalidade. Uma estreia admirável.
– The Chicago Tribune –

Sobre o livro

Objectos Cortantes
Autora: Gillian Flynn
Editora: Bertrand Editora
Publicação em Portugal: Julho de 2015

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