A educação de Eleanor (2017), Gail Honeyman

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Eleanor Oliphant tem uma vida perfeitamente normal – ou assim quer acreditar. É uma mulher algo excêntrica e pouco dotada na arte da interação social, cuja vida solitária gira à volta de trabalho, vodca, refeições pré-cozinhadas e conversas telefónicas semanais com a mãe. Porém, a rotina que tanto preza fica virada do avesso quando conhece Raymond – o técnico de informática do escritório onde trabalha, um homem trapalhão e com uma grande falta de maneiras – e ambos socorrem Sammy, um senhor de idade que perdeu os sentidos no meio da rua. A amizade entre os três acaba por trazer mais pessoas à vida de Eleanor e alargar os seus horizontes. E, com a ajuda de Raymond, ela começa a enfrentar a verdade que manteve escondida de si própria, sobre a sua vida e o seu passado, num processo penoso mas que lhe permitirá por fim abrir o coração.

Apreciação

Quando me sugeriram A Educação de Eleanor, esperava encontrar um alter ego da Bridget Jones e, qual a minha surpresa, fui arrebatada com o que encontrei quando pesquisei sobre o livro. É raro entrarmos no Goodreads e encontrarmos um livro com uma classificação de 4.32 estrelas e isso aconteceu-me precisamente quando procurei pelo primeiro romance de Gail Honeyman. Se considerarmos que a edição original é de Maio deste ano, não é mesmo surpreendente encontrar 1.500 classificações e uma pontuação tão alta?

Eleanor é uma mulher cheia de falhas. Irritante, mesmo. O livro começa naquele que parece ser um momento absolutamente aleatório da sua vida: Eleanor conta-nos sobre a vida quotidiana, os hábitos domésticos, o desinteresse pelo trabalho. Mas não, nada acontece por acaso. Se começamos por ser contextualizados na vida vazia da nossa protagonista, rapidamente começamos a tecer considerações sobre a mesma: que raio de mulher é esta? Conhecemos os seus pensamentos mais íntimos e a sua vontade incontrolável em se afastar das pessoas. A sua perspectiva da vida e da socialização é, por vezes, tão errada que Eleanor podia ser perfeitamente a pessoa ao nosso lado. Afinal, as pessoas não são perfeitas e, nos livros, a bem ou a mal, queremos apenas pessoas excepcionais ou medíocres. E isso cria muitas interrogações nos primeiros capítulos.

E foi exactamente a transformação da personagem que me conseguiu prender e viciar ao longo do livro – que li em apenas dois dias. Por um lado, vemos o mundo aos olhos desta mulher frágil que tenta lidar com o presente sem que nos apercebamos – nem ela – que é o seu passado que a conduz. Por outro, temos a noção do quão errada por vezes é a sua visão, pelo que se torna fácil criar empatia com esta trintona solitária. É que A Educação de Eleanor é muito mais do que a história de uma mulher que conhece um homem e que ajuda outro – ainda que de forma forçada. Este livro é uma história de salvação, de luta e da capacidade de autocrítica suficiente que permita percebermos quem somos, o que fazemos mal, o que queremos e, por fim, definir o que podemos mudar.

Honeyman não nos apresenta o dia-a-dia de Eleonor por acaso. Passagens breves sobre o quotidiano de Eleonor, como o facto de desconhecer os vários tipos de depilação e de tomar decisões levianamente, não têm qualquer influência no desenrolar da narrativa. Esses momentos servem para que conheçamos a personagem e entremos no seu universo, sempre a seu lado. Para lermos esta história, é isso que tem de acontecer: temos de ver a vida através dos olhos da protagonista e acreditar que as características que a tornam quase uma sociopata são verdadeiras, verossímeis e sólidas.

No final do livro, é possível acompanhar, analisar e aceitar a linha da vida da personagem ao longo do tempo, comparando o antes e o depois. Se consideramos absurdo que Eleanor se apaixone por um homem que não conhece e que os seus actos sejam justificados por esta paixão, no final do livro podemos voltar atrás e redimir-nos porque sabemos que a sua história poderia, de facto, ser da pessoa ao nosso lado devido à dor presente em todo o livro, aos erros cometidos, à ignorância de alguns aspectos do dia-a-dia nos vários círculos sociais, à influência que o passado – seja ele qual for – tem actualmente e à (in)capacidade de sabermos o que podemos mudar para sermos mais felizes, mesmo que pensemos que estamos bem como estamos.

Baixei-me e fingi estar a prender o Velcro do meu sapato. Demorei o máximo que podia, na esperança de que Raymond percebesse a indireta. Quando por fim me levantei, ele ainda ali estava, com os braços pendentes ao lado do corpo. Reparei que o seu casaco era uma canadiana. Uma canadiana! Com certeza que só crianças e ursinhos de peluche usavam casacos daqueles?

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